sexta-feira, 23 de março de 2018

Recado para o hoje, que também é o sempre.

Eu passei dias procurando um tempo livre para escrever sobre a necessidade de 'dizer', mas o medo de perder um tempo precioso concatenando frases e ideias que depois vão ficar perdidas no tempo e no ocioso espaço que é a internet tem me afastado dessa tarefa.

Mas, por que falar? Porque será que é bom falar? Bom, sem querer transformar esse em um texto retórico, apenas adianto que é importante que as pessoas falem, digam. O que está escrito apenas nas entranhas do cérebro tem a volatilidade do aroma fraco de uma gota que se evapora: simplesmente vai. O que você escreve pode nem ser o fruto dos seus minutos livres mais inspirados, mas certamente vai ser uma prova tátil, palpável, do que um dia você pensou. Vai sim se perder no tempo e espaço ocioso da internet, ou dos cadernos, diários, papiros, tábuas e pedras da humanidade. Vai sim ter mil interpretações, traduções; mas de tantas versões do mesmo fato, a que realmente importa é justamente nenhuma e todas elas ao mesmo tempo. O dito é importante em si mesmo, para quem escreve e para quem lê.

E esse medo de perder tempo é também o medo de me perder em mim. Por isso que, antes que eu divague mais, é importante deixar bem claro que: o universo é maravilhoso. Hoje, nesse particular dia desse particular ano, nessa particular sala desse particular prédio desse particular planeta, o fato disso tudo me permitir abrir a boca e dizer que o universo é maravilhoso; essa singeleza é a coisa mais maravilhosa que pode existir.

Não precisa viajar até a Mongólia, ou deitar num campo de tundra siberiana, ou estar dentro de um barco cruzando o Nilo: você é você onde quer que você esteja e o mundo vai ser melhor ou pior não porque um avião te levou no lugar mais curtido e hype e cool. Você é você sobre o seu próprio pé em qualquer lugar desse e de outro mundo.

Então, recado mental para mim e para as pedras sobre as quais escrevo: desejo de estar em outro lugar é mera circunstância, o real e o que importa está dentro da sua cabeça. O amor que você dá pro outro, o que você recebe. As relações positivas que você tem com seu meio, com tudo aquilo que você já foi, é e será. Você não precisa ser sete bilhões no mundo, basta ser um dentre estes e é só isso que é requerido de você, e ainda bem que é só isso. Porque imagina o monte de loucura que é cuidar só da sua mente e da bagunça que você faz diariamente da sua vida, se você ainda tivesse que cuidar de outra?

Se puder, pergunte à natureza, diretamente. Ela pode lhe ajudar.

Portanto, recado dado, agradecimento feito, lembre-se: é tempo bem gasto esse em que você diz eu te amo para alguém. Não perca tempo e faça agora e a todo tempo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

À deriva.

João nasceu em julho. Desse fato não há muito que se falar: ele simplesmente nasceu. Sua mãe talvez tenha algo a acrescentar ao ocorrido, possa dar detalhes do choro, da dor, do cheiro de talco e roupa limpa e das costas doídas depois de meses de uma coluna envergada por um bebê que nunca parava de engordar. Mas o fato foi que João veio ao mundo e pronto. Um bebê.

Ainda pequeno, quando o poder de escolha e das consequências dos seus atos estava basicamente concentrado na mão de outra pessoa, sua mãe teve que escolher entre A e B, sendo A ir atrás do amor da sua vida, o pai de João, itinerando pelos interiores de sua alma e de sua terra, bem longe de quem ela tanto queria bem, e B desistir de tudo, trafegando pelo campo calmo que é a paz e o conforto das nossas zonas.

Em resumo rápido - pois não vim aqui falar da mãe de João senão do próprio - ela decidiu pelo plano A e seguiu o pai de seu filho pelas suas viagens. João também sofreu as consequências da decisão de sua mãe, afinal era um mero navegante à deriva de uma tempestade, ao sabor do destino e do vento, daquele amor complicado. Até hoje eles, os pais, estão juntos, não sem dificuldade. Não significa que ''até hoje estar junto'' seja a glória e o único desejo de toda relação. Todo mundo sabe que uma história é muita tosse, café frio, boleto, imposto, me dê a senha do seu celular, quem é essa Marcela no seu instagram, sua mãe não tem noção, seu pai é pior, aquele corno do seu primo, você parece que come cocô pra falar um negócio desses, você que deve ser muito burro pra não entender, vamos fazer as pazes, vamos, mas eu só falo com voz de bebê agora, tá certu bebezão.

E aí dentre os mil dias que começam sem um bom dia carinhoso e terminam em um beijo com sabor de pasta de dente, tem aqueles que você se sente a pessoa mais especial do mundo, aquele em que um passa numa prova desejada, aquele outro em que você chega em casa e tem uma cama coberta de pétala de rosas, aquele em que rola um sexo proibido na praia nem tão deserta assim. Aquele dia em que tudo estava dando errado, em que os boletos entupiram a caixa e que ambos gastam o resto do dinheiro do mês numa coisa bem extravagante e utilmente desnecessária.

Mas e se a mãe de João tivesse escolhido B, deus sabe onde João estaria agora. Poderia João ser rico, ou ser pobre, estar vivo ou estar morto. Estar casado ou solteiro, com dois filhos ou sem nenhum. Podia ter escolhido se mudar para o nordeste e se encantado com a praia e os golfinhos, vender a arte ou planejar ataques a banco. Podia ter assistido à chuva de meteoros passar no céu estrelado de um janeiro solitário em sua casa ou podia estar comendo peixe e tapioca com uma família numerosa. Enfim, deu para entender que tem escolhas que João não faz, mas que mesmo assim vão definir um bom pedaço do rumo dele.

Acontece que João hoje é dono do seu nariz, ele é quem ele é em boa parte porque as escolhas feitas por sua mãe o trouxeram até aqui. Um menino bom, um rapaz atencioso e que cuida do cabelo, mas desse fato não há muito que se falar: ele simplesmente cresceu.

E agora, pressupondo que as decisões de sua mãe sobre A ou sobre B não vão mais impactar tanto na sua trajetória, eis que aquele bebê nascido em julho, que acompanhou todas as tosses e cafés gelados de seus pais, tem diante de si duas opções: A e B, sendo A ir atrás do amor da sua vida, itinerante pelos interiores de sua alma e de sua terra, bem longe de quem ele tanto queria bem, e B desistir de tudo, trafegar pelo campo calmo que é a paz e o conforto das nossas zonas.

Todo dia é dia de tomar decisões. Todo A pode levar a um caminho que pode ser a solidão no meio da multidão e B a alegria de se sentir pleno no vale onde alma alguma habita. Tem outros Joãos e outras Marias que vão sentir o impacto dessa decisão, mas a essa altura, assim como foi com a mãe, o pai, e todos os outros milhões de seres que simplesmente escolhem todos os dias, ninguém pode fazer isso por ele.

Eis a dor e a beleza de sermos navegantes à deriva nesse mar bravio que é a vida.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Pequenos suicídios

Cora Coralina disse uma vez que é preciso que alguém reveja, escreva e assine os autos do passado antes que alguém leve tudo a raso. Que sabedoria a dessa mulher, não? Ouso dizer que até mesmo as tragédias têm um lirismo perfeito: a minha dor me é tão cara que eu posso viver sem um braço, mas não sem ela. Seja em matéria de grandes feitos ou de pequenos martírios, o passado é mais que direito: é essência do que somos formados, rocha de nosso chão ou basicamente o que nos separa de um pedaço de carne que só anda e fala.

Autores, revisores e leitores assíduos desse nosso pequeno sopro chamado existência, escrito todo dia no papel da inexorável marcha do tempo. Nós somos também pilotos desse corpo e a nós nos compete tomar o rumo: um caminho que não só tem um fim certo, mas também uma única chance de ser bem percorrido, afinal todo segundo que se vive é o último e o único ao qual somos obrigados.

E essa história, o passado, é feita todo o tempo, se morrendo para se viver; são pequenos suicídios que a gente comete para corrigir os rumos, retomar as rédeas de si, every single day. Doses diárias de coragem são necessárias para que o eu seja sempre eu e não qualquer outro errante perdido por aí. Doses tão fortes que parte de nós vai junto com as decisões: em matéria de vícios, relacionamentos e empregos, é preciso deixar morrer certas coisas antes que elas te morram.

Sou meu passado, mas sou ainda mais meu futuro. Ora, todo santo dia é o dia para fazer o maravilhoso acontecer. Todo santo dia é o momento de se obrigar a não fazer nada menos que o maravilhoso de nossas vidas e, por consequência, da vida dos outros que nos cercam e ainda das que podemos tocar com nossos atos. Vejamos, escrevamos e assinemos nossas histórias com orgulho de tê-las feito da melhor maneira que pudemos em cada pequena ou grande decisão. Que o arrependimento e o perdão sejam os ensinamentos necessários para melhorar essa escrita a cada nova página, a cada nova obra.

É bom lembrar que toda história tem um único fim, mas a beleza que existe no meio é culpa da cor da tinta e da habilidade do pintor. Quem não faz isso, não decide o que é o melhor para sua história a cada segundo, é melhor logo se considerar um pedaço de carne que só anda e fala. Isso vale desde o dia em que se nasce ao dia em que se vai de vez.

Olhos de alvorada

Eu não sei o que tem nesses olhos que vivem com sono
sem jeito e sem dono
Sem ideia da força que têm        

Eles são a quimera escandalosa
São ao mesmo tempo prisão e alforria
Nas auroras mais silenciosas
São denúncia de que amanheceu o dia

São becos, frestas, vielas
Esses olhos são asilo
Para onde correm os outros sentidos
E onde se escondem os fugitivos.

Eu não sei o que tem nesses olhos que vivem com fome
sem jeito e sem nome
Sem ideia da beleza que têm     

Que me fazem lembrar o nascer do sol na pele queimando
Sem a correria do perfeito plano
Esses olhos têm um jeito gostoso de me fazer bem.

Janeiro de 2014.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ah, essa cidade.

Da janela eu vejo que o sol não saiu ainda e aquela penumbra típica de um início de manhã gelada paira no ar por sobre os prédios que escondem as montanhas e por entre as árvores que quase nunca se mexem. Ah, essa cidade, fria e que leva a beleza do panorama bucólico em seu próprio nome próprio. Fria como a solidão, dura e impassível, dedo em riste na sua cara mostrando impávida sua força enquanto ri do degredo que é a vida ainda que cercada de milhões de outras pessoas.

Mas convenhamos, a culpa da solidão não é da cidade fria. Ah, essa cidade, até mesmo a mais tropical das praias é um deserto para um coração gelado. A culpa não é da ausência, porque afinal a falta nos motiva e nos desestimula, nos move e nos para; a falta é inerente a essa sociedade pautada em consumo, se ele lhe preenche, ou quanto custa a sua paz. Em tempos onde a ilusão de que a felicidade cabe numa rede social, a ausência é também o combustível da mentira que escolhemos para justificar erros e defeitos, sendo que o principal deles é o de estar sempre insatisfeito; parece sempre faltar algo nesse suposto sonho de existir. Sempre falta algo que se pareça com a muita cor e o muito sorrir daquelas frias fotos irreais na tela de um celular.

Repleta de ausências, paira da janela a falta de calor, de cor, de vento. Ah, essa cidade, que lhe aponta o dedo mostrando sua fraqueza e lhe bambeia as pernas, lhe causa aflição sem a menor piedade. 

Mas, pensando bem, e você há de concordar comigo, a culpa de sofrer de tristeza mesmo é só uma: da beleza da vida. E esse paradoxo é bonito demais, afinal quem mandou ser tão bom ter nascido no lugar mais bonito desse mundo que é justamente esse mundo? Ah, essa cidade. Feche o olho, tem coisa melhor do que se lembrar só de coisa boa? Dos dias em que você faz do seu lugar o seu gozo, sua morada, seu alimento? Do sabor que lhe sacia, da água que lhe preenche, do fogo que é o abraço de quem você ama? 

Não existe cidade vazia se o problema não é a cidade. O problema são os corações que batem naquela cidade, mas que podem bater em qualquer lugar onde corações sejam capazes de bater. O problema mesmo são aqueles sorrisos, mas que sorrirão onde quer que sorrisos possam ser dados e desde que seja bom sorrir. O problema é o amor, mas que pode ser amado em qualquer lugar onde o amor puder sobreviver. Ah, essa cidade, que doce é nela padecer; que a falta não me deixe nunca ceder.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Da cidade natal ao futuro

Eu nem vi se era mesmo belo aquele horizonte, mas eu senti a cidade à minha frente, o topo dos edifícios, o barulho, o calor e o sabor do vento. O fato é que ela estava lá, altiva, viva, pulsante e parada, distante e perto, enquanto eu em crise de ausência crônica, como alguém que morreu e não descobriu, uma alma penada e parada em pé sob o sol escaldante das 11 da manhã.

Engraçado começar um texto assim, falando de coisas que só têm sentido em se vivendo e terminar se comparando a estar morto. Mas se você olhar bem, a gente é mesmo essa coisa ambígua: vilão e heroi. Eu sou o meu lobo, eu me mordo e eu me mato ao passo em que apenas sou refém do que sinto. E quem consegue parar isso, não é mesmo? Quem senão eu para melhor me destruir com minhas próprias armas? Não sou apenas um lobo, mas o meu melhor lobo. 11 e meia da manhã eu era o maior dos meus infortúnios.

E foi nessa hora que me perguntei: a gente é para quê? Para ter um filho e dá-lo ao sofrimento? Para cumprir com alguma missão que vai envolver necessariamente a dor da perda? Para servir a alguém maior que eu? Ou a um ideal maior que eu? Até o meio dia, eu acho que nada mais tinha mudado exceto o sol que agora queimava mais, embora o sentisse menos. E até uma da tarde morri de saudade do que vivi, do que não vivi também. Chorei pelos amigos, pelos amores, pela família, não de arrependimento ou tardia epifania qualquer, mas por singela saudade até daquilo que era ruim e que passou.

Aí eu percebi o quão bom é refletir para irradiar, tal como um espelho limpo e lavado. Chorar, botar para fora, lembrar com carinho, pois tudo é para fortalecer. Do jeito que uma e meia da tarde eu estaria de pé, estático, impávido e colosso, engrandecido porque, se vale a pena qualquer coisa, repito, qualquer coisa, é só para se ter o que se ama.

Eu nem vi se era mesmo belo aquele horizonte, mas esse nome me pareceu um vaticínio: assim como minha cidade natal é e sempre será meu ninho, será bonito o futuro daqui para frente. E nele estarão comigo todos os que aqui quiserem estar e ainda aqueles que eu guardo de corpo e alma, porque só por eles vale qualquer esforço. Qualquer um.


domingo, 20 de novembro de 2016

Liberdade sem asas.

João de barro era um menino pássaro igual a todos os outros meninos passarinhos da redondeza. Braços grandes, pés pequenos, tudo no seu lugar. Tinha uma tosse frequente, mas isso não era lá grande coisa; não atrapalhava quando ele podia brincar com os outros joãos e marias dali, afinal cada um deles também tinha algo característico: um era a asa quebrada, outro o bico torto, um terceiro pardal mais franzino mal conseguia abrir o olho de tanta remela. A maria mais amiga do nosso joão era muito rolinha: linda e pequena, mas já um pouco corcunda de tanto abaixar o bico catando o milho do chão.

E eles viviam assim, dia após dia, passarinhando o quanto podiam. Sem o stress da vida confinada: já nasceram pobres, porém já nasceram livres. Ele e os outros nem eram joãos de barro crescidos, mas por não terem seus pais pássaros por perto, tiveram de construir sua própria casa de adobe imaginária entre duas pilastras da Importante Avenida Afonso Pena, terra do lazer, do ócio, terra das compras. Aproveitaram a marquise como teto e o bueiro como banheiro e era ali onde morava a liberdade de joão de barro e de seus amigos.

Outros pássaros mais ricos, com os bicos endireitados e as asas empertigadas, olhavam com desdém enquanto jogavam alpiste imaginário para a mão grande e suja de joão. Ele aceitava de bom grado e sorria enquanto seu remédio para a tosse de uso diário e contínuo fazia efeito. A maria corcunda que dormia na cama ao lado usava outros remédios ainda mais fortes; devia ser pior a dor daquela rolinha franzina e flaca.

Um dia inventaram os pássaros ricos de fazer uma festa cujo tema era ‘contra a intolerância’ na frente da casa de joão, na Importante Avenida Afonso Pena. A fila era grande para entrar numa imensa gaiola: no mínimo um paradoxo para joão que não entendia custar tanto alpiste o fato de ficar livre da liberdade.

Mas enfim, era um dia bom para ele e para os outros pois com certeza não precisariam voar tão longe para conseguir qualquer alimento regurgitado que fosse. Aí nosso pequeno se encheu de remédio para a tosse, arrumou as penas, de olhos vermelhos pegou na mão pequena de maria e foram os dois, tão altos quanto se possa imaginar, para a porta daquela gaiola. Eu ainda vi a hora em que joão se perdeu de maria e, tentando pedir alpiste aos que estavam na fila, só pode ter incomodado algum pássaro santo deus, alguma águia de penas brancas e limpas, para terem começado a lhe perseguir. Aí eu acho que joão meio que se perdeu dele mesmo também. Saiu rodopiando batendo as asas entre a grade e a fila que seguia rente a esta, ninguém o tocava, ninguém o olhava exceto para dele se desviar.

Eu que também estava naquela fila, vi maria do outro lado da rua, encostada num poste apagado e apagada. Já ele passou por mim meio que de raspão e voando sem rumo sempre esbarrando na grade enquanto dois papagaios-segurança o perseguiam. Aí foi quando ouvi alguém dizer: “olha só, parece um passarinho quando a gente prende na gaiola e ele tenta desesperado sair”.