quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O instante em que a vida é intensidade.



Fechei os olhos para não ver o tamanho da queda, embora ela fosse mais que inevitável. Senti perder o equilíbrio, perder o controle dos movimentos, fechei os olhos para tentar mascarar a dor que vinha e BAM! Assisti tudo em slowmotion e por isso tenho detalhes para contar por mais de uma hora de um evento que durou pouco mais de um segundo.

Outro dia vi um filme em que a personagem dizia ter substituído todas as suas drogas por adrenalina quando perguntaram a razão dela ficar o dia inteiro sentada no parapeito de um prédio. E isso meio que me conectou a ela, àquele instante, pois às vezes parece que a gente sempre procura um precipício novo para encarar, todos os dias, em troca de algum sentimento, emoção, ilusão...

Não sou uma pessoa de muita sorte e talvez por isso - ou por ser desengonçado mesmo - me quebrei. Tinha cruzado os dedos para continuar vivo, já que cruzar os pés um no outro e cair, torcendo o tornozelo, não foi das manobras mais bem executadas. Mas também, todo skate devia ter manual de instrução do tipo: produto proibido para seres humanos, ou então, designado para fazer com que você dependa dos outros, substância impregnada de adrenalina e de atestados médicos... De qualquer maneira, tive que abrir os olhos depois da queda. E ali estávamos: eu, o chão, o skate virado com as rodas ainda girando do meu lado, algumas pessoas rindo ao fundo e o céu estrelado... Cara, e que céu! Juro que a parte boa desse slow motion natural é lembrar daquela noite estrelada. Parecia uma cortina de miçangas, sabe? Meio psicodélico, meio bonito demais para ser verdade. Nem a dor nem os analgésicos diminuiriam sua beleza.

Um amigo meu costumava falar que sua vida é uma eterna batalha para saber quem o mata primeiro: hipertensão, porque come tudo com muito sal, ou diabetes, porque o doce é algo que não tem limites. Eu não estou muito longe disso aí não: minhas expectativas para a vida são muito altas para me privar de alguma possibilidade. Já um outro amigo me dizia durante um trekking que, se dependesse dele, o Brasil era só um bando de pessoas morando ali nas redondezas de Porto Seguro, porque "diabo é quem tem coragem de dar a vida para desbravar uma terra cheia de bicho e mato". Quer dizer, bicho que pode te matar, mato que pode te matar.

Bom, concordo e discordo de ambos. Mais do que viver muito, quero viver intensamente. E isso aparentemente implica em diversificar as minhas opções de causa mortis, seja andando de skate, fazendo trilha no meio de bichos e matos, salto no canto mais fundo da cachoeira e do cais, viajando nesses aviões que cada vez caem mais, nesses ônibus que desafiam precipícios, nessas comidas salgadas ou nos outros muitos destrutivos vícios. Se você olhar bem, a todos os riscos do mundo podemos estar sujeitos, desde uma guerra no Paquistão ou um terremoto no Japão, uma nova doença ou uma velha vontade de se sentar no parapeito de um prédio.

É meio paradoxal e contraditório, mas não tenho medo da morte. Na verdade, são muitas as opções que eu dou além da hipertensão e da diabetes para que ela venha e me leve logo. Eu tenho medo mesmo é da possibilidade de me faltar a coragem para cair, de perder a vontade de me arriscar a cruzar os pés um no outro e sair bolando por aí, incerto das consequências. Não sei o que faria sem esses slow motions para apreciar a beleza estática e luminosa do céu estrelado, pois no fundo sou apenas um punhado da mais insignificante poeira do universo. Aquela poeira da qual todos somos feitos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Enquanto no escuro

Queria saber flutuar como uma pluma
Me sentir espuma, levitar.
Da gravidade ser amigo, dos planetas inimigo.
Ser avesso ao chão duro,
E mesmo no escuro, dançar.

Queria ser como a água, líquida
Ser fluida, infiltrada de todo jeito
me esconder nos buracos profundos
de onde espreito os becos e mundos
Testemunho do meu jogo perfeito.

Queria ser a vida para ser pluma e água
Até porque é assim que somos,
Esse é o destino que nos pauta
um astronauta que da superfície
não sente falta pois vive de sonhos.

Queria ser eu para não ser eu
Para não abrir os olhos e enxergar
Poder me afastar do meu centro
Pois lá dentro tem um menino
Que sempre só quis brincar.









terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Fuga.

É na fuga da rotina que me tens por inteiro. É na ignorância da rotina que eu me esquivo e, enquanto a despisto, mergulho no mar que é de corpo e de cobertor, de braço e de abraço. Corro rápido para perto dos olhos dormentes que são a beira do mar e porta do universo e lá dentro me afundo mesmo, me refestelo de liberdade; liberto do despertar, dos despertadores e de suas horas, minutos, segundos, terceiros... 

A agonia de logo mergulhar dita toda a minha pressa. Não desate os nós desses cadarços pois eles se enlaçam e desenlaçam com a rotina e rotina é norma. Ela é o calçado que impede de sentir o chão, de apertar a terra fria por entre os dedos, de ser o mar em que mergulho. Deixe que eu arranco com meus dedos do pé essa meia, não vamos perder tempo com processos infalíveis e programados. Não vamos seguir padrões, não deixe o sol se esconder, não desligue a luz, não pare de dançar. Não resolva agora todos os seus problemas, tão pouco queira saber dos meus, porque a gente está tratando aqui de sonhos e a rotina é inimiga da minha pressa.

Deixe-me contemplar o barulho do mar que vem de dentro dos olhos enquanto sonho com a próxima fuga em que me terás por inteiro. E, por fim, quando for inevitável abraçá-la, é melhor pensar que até mesmo o trem que irrompe das montanhas também abraça os seus trilhos, a sua rotina. Que até o avião, esse danado, depende do chão para poder flutuar.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

É o que se tem para hoje. (parte 6)

Confesso que foi difícil atender um telefonema tão enigmático, tão cheio de significações. Ora que coisa, tinha que ser um dia depois do aniversário de nosso encontro? Tinha que ser na hora em que a borboleta mais curiosa pousava na flor mais próxima de mim dentre todas as outras borboletas e flores do planeta? Tinha que me inevitavelmente fazer lembrar do dia em que recebi outra ligação, dessa vez a que me separaria para sempre daqueles olhos de pérola negra que daquele dia em diante voltariam a ser estrelas? 

Eu queria ter tido um só dia, que fosse uma só chance para conversar com ela, que fosse até por telefone. Só bastava um minuto. Depois que ela me ensinou o que significava a vida, agora me ensinaria o que significava a morte. Poderíamos relembrar as histórias, riríamos das desgraças como sempre fazíamos e, no fim, ela me diria se em algum universo paralelo elas terminaram de maneira diferente. 

Mas de que adianta o querer se não existe tal coisa como a realização? Acho que é por isso que não entendemos a morte, pois se alcançássemos esse objetivo, este já deixaria de sê-lo e não teríamos mais para onde partir. Do vazio ao vazio, esse é o caminho que percorremos. Do verão ao verão, do chão ao chão, do pó ao pó. Das estrelas às estrelas.

E por falar em estrelas, o sol deu uma pequena trégua e resolveu se esconder por um pequeno instante, o suficiente para interromper o repouso da pequena borboleta nas flores que Seu Abel tinha colocado na varanda. Olhou para mim, bateu levemente suas asas e, no intervalo de um piscar de olhos, se foi do vento para o vento. 

Em uma das esquinas dessa ou de outras existências eu tenho certeza que seu sorriso amarelo e seu sotaque português ainda caminham por aí de braços dados com a alegria e a histeria sua e de seus amigos.




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

É o que se tem para hoje. (parte 5)

Você tem que confessar junto comigo que receber a ligação do número de alguém que já morreu é, no mínimo, desconcertante. Tudo bem, é plausível que o receptor de uma chamada dessas se dê conta um ou dois segundos depois do choque que um número é só um número e uma pessoa é só uma pessoa. Pessoas não são números, muito embora a gente (in)conscientemente designe algarismos para contar os eventos que impactam as vidas únicas, singulares e de valores imensuráveis de cada um de nós. Inclusive fiz isso quando acordei e me senti mais tranquilo só por realizar que estava aqui, nesse hemisfério, nessa cidade quente, nesse coletivo insano de sanidades irreais e fabricadas onde lobos e loucos se confundem cara a cara.

Uma coisa me dá certeza que estamos numa matilha faminta onde tudo e nada se justificam: a efêmera existência. A justiça que nós inventamos não passa de mera tentativa de acomodação das mútuas realidades, da minha, da sua, por exemplo. Seu Abel não gosta do argentino e, para ele, a existência daquele outro é irrelevante. Entretanto, para o universo, os dois são mais efêmeros que um sopro de vento. E pelo jeito que as coisas andam, sopros de vento carregando o som de nossas agonias e angústias serão tudo que restarão nesse teatro em chamas do qual hoje corremos afobados procurando saída, mas que cujas portas estão trancadas. Estamos todos sufocando na peça da vida mimetizada em poluição, em violência, em desamor.

E Lara era a foice e o martelo da oposição a isso tudo. A sua morte prematura e inesperada foi o significado maior que não vivemos em um mundo cujas bases são "justas", senão apenas fisicamente equilibradas. Não existem balanças no nosso pequeno planeta humano, só foices e martelos. Ela se foi depois de sofrer as complicações de uma cirurgia simples após um acidente banal de motocicleta. É tudo tão efêmero, foi tudo tão absurdo e tão clinicamente elaborado pelo acaso. Não venham me dizer que foi obra de algum ente superior escrevendo certo por linhas tortas porque isso definitivamente não é verdade.

Em seu pequeno plano individual, a tudo e a todos Lara deslumbrava de tanto amor. Deslumbrante, esse é o termo ideal para representá-la. Melhor que falar de seus olhos negros, de sua composição magmática, de sua semelhança com as borboletas, é apenas lembrar de seu caráter deslumbrante, que, na verdade, é o adjetivo que iguala todas as suas metáforas. 

Nós não precisamos ser números que contabilizem sete bilhões de atores e plateia queimando seus papeis enquanto enlouquecem com o sobe e desce da bolsa de valores; nós não precisamos ter a certeza relembrada a todo momento que moramos no pior lugar do mundo, independente de onde ele seja.

Nós precisamos mesmo é de desconstruir todas as portas fechadas desse teatro chamuscante, edificado meticulosamente por séculos de opressão. Deixar de ser números, de sermos as numerosas vítimas de homicídios, de sermos a maioria da população que não ganha o mesmo que a minoria por havermos nascido mulher, de sermos um povo aviltado de direitos pelo ódio do preconceito e pelo carma da escravidão, de sermos abnegados de posições e direitos pelas diferentes silhuetas... de sermos mais efêmeros que o vento. A gente precisa mesmo é de mais pessoas e menos números. A gente precisa que todos sejam encharcados de amor em todas as suas formas.

E pensando nisso tudo é que a ideia de atender a ligação que logo soube ser da irmã de Lara, naquele instante, onde minha mente fecundara em arremedos de filosofia barata e fundira pelo calor do sol - e do momento -, me soou no mínimo desconcertante. Ela queria se encontrar comigo pois havia chegado de viagem e tinha saudade dos amigos que deixara aqui em Natal, amizades cuja fundação fora sedimentada pelo intermédio da irmã.



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

É o que se tem para hoje. (parte 4)

Então foi tudo nessa ordem: Seu Abel, flor, whisky, ressaca, sol, borboleta, jornal, telefonema e, por último, eu mesmo, apenas mais um elemento nessa provável ou improvável sequência de eventos aleatórios que só fazem algum sentido se eu conseguir contar um pouco do que se passou antes que eu atenda a fatídica ligação.

Lara foi uma joia na terra. Não era uma pedra preciosa ou um metal nobre, mas uma rara pedra vulcânica, pois que lapidada pelo vento e pelo mar que separa os continentes. Pedra da cor de seus olhos negros porque sua constituição era de ebulição, de transformação; magmática e enigmática. Leve, flutuava sobre qualquer subjetividade superficial que ousasse determinar sua ligação com qualquer pedaço de chão... para Lara, éramos qualquer coisa do próprio e de vários chãos, fossem eles azulejos portugueses, leitos de rios guineenses, asfaltos paulistanos ou mesmo o salitre daquelas paredes e pessoas corroídas de Natal.

Como toda boa joia, seu valor alto sempre despertou cobiça. Era disputada acirradamente por todos os seus amigos antigos e pelos novos também, para os quais ela escrevia formulários para verificar a afinidade em temas essenciais como: sabor preferido de terra, combinação de roupas e acessórios para usar no caso de eventos apocalípticos, impactos de asteroide, invasões alienígenas... além disso tinha os ensaios caseiros para a dublagem do especial de natal da rede globo em quatro ou mais línguas.

Não conseguia conter sua histeria nem mesmo quando decidiu, motivada por uma aposta com um amigo, virar vegetariana. Continuou frequentando o macdonalds e era motivo de risada quando pedia seus sanduiches sem hamburguer. Gostava de se denominar como borboleta, talvez pela metamorfose de si e de suas decisões, mas também porque podia voar.

A dificuldade de adaptar-se à normalidade refletia-se, por paradoxo, em uma exímia capacidade de analisá-la. Enxergava do alto os acontecimentos e os diagnosticava com precisão. Não foi à toa que escolhera ser psicóloga; não foi à toa que me ensinara a olhar o mundo com aqueles olhos que pareciam miniaturas de seu universo particular, absortos pela natureza e por sua complexa simplicidade. Por suas asas de borboleta eu voei e vi, junto com ela, que a existência tinha sim limites, mas o mundo não.

Seus insanos planos de dominar o mundo sobre uma lambreta com seu pato de estimação na garupa acabaram por ser seu acaso fatal. Frankly my dear, she didn't give a damn. O vento a levou para longe, para lá de onde minhas rosas brancas possam exalar seu cheiro para relembrá-la. Mas trouxe-a para mim naquela manhã ensolarada, quando seu número aparecia no display do meu celular.

Atendi. Era sua irmã que havia chegado de viagem para passar alguns meses e queria me encontrar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

É o que se tem para hoje. (parte 3)

Aquela era uma manhã de segunda-feira. O dia anterior fora de comemoração, havia saído com uns amigos para beber em uma praça perto de casa para celebrar o aniversário de um deles. Todos os anos eu me dou esse dia de embriaguez tanto pelo motivo explícito que é o aniversário desse amigo quanto pelo velado, que é a data em que conheci a pessoa que mudou a minha vida.

Antes de sair do seu expediente do domingo, Seu Abel me encontrou no saguão do condomínio. Ele é um senhor daqueles bem cara-de-vô, esguio, cabelo grisalho, armação de metal nos óculos que ainda levavam um durex na extremidade para remendar a perna quebrada e uma lente fundo-de-garrafa que destacava ou escondia o olho verde claro e as olheiras de alguém que já trabalhou muito. Sempre supus que as lentes que ele usava para enxergar a vida tinham uma finalidade adicional, a de se privar de ser enxergado. Parecia até uma barreira que impedia qualquer aproximação, talvez por isso eu soubesse muito pouco ou quase nada sobre sua história.

Seu Abel conhecia todos os 80 condôminos do prédio, suas famílias, visitas desejáveis, indesejáveis e aquelas mais furtivas também. Ele era tão esperto que, com desfaçatez, conseguia fingir perfeitamente uma surdez sempre que lhe era conveniente, especialmente quando era questionado por algum morador sobre o motivo de ser apanhado com o ouvido encostado na porta do apartamento ao detectar o primeiro sinal de uma discussão mais acalorada lá dentro. Aquele meu vizinho, o argentino apreciador de charutos, detestava-o justamente porque, dentre a série de palavras em espanhol que havia decorado de tanto bisbilhotar as discussões dentro do apartamento do portenho, a única que ele fazia questão de repetir sempre que fosse possível ser ouvida pelo morador era 'maricón'.

No domingo, Seu Abel me parou quando eu estava de saída para o aniversário para me contar que o condomínio estava doando mudas de plantas e rosas. Perguntou se eu não queria uma muda de Cambará pois eu levava um pequeno ramalhete de flores brancas na mão direita e um litro de whisky na esquerda. Olhei para ele disse que sim, que se pudesse, deixasse algumas dentro de um vaso que havia na varanda e para a qual ele tinha acesso independente de minha presença.

Até tinha esquecido como aquelas flores tinham chegado ali quando abri a cortina e olhei o vaso repleto daquela enormidade de pequenos botões rosa clareadas pela luz do sol. Cambarás são ótimas para atrair borboletas e, talvez por isso ou pelo acaso, havia uma bem grande pousada bem no meio do pequeno arbusto, batendo as asas lentamente, como que se me encarasse, como que se me conhecesse.

Pouco depois desse momento de contemplação mútua, ela voou, acho que assustada pelo telefone tocando. No identificador de chamadas lá estava:  Lara ✩ . 

A razão da minha inquietação com aquela ligação era porque ali, naquele celular, naquele exato momento de insolação, de ressaca e de realidade quase fantástica estava chamando o nome da pessoa que tinha mudado minha vida e para a qual eu tinha levado flores à sua morada no dia anterior como forma de homenagear o dia em que nos conhecemos. Lara morrera há uns três anos por complicações de uma cirurgia ortopédica quando tinha só 27 anos.