segunda-feira, 23 de março de 2026

A massagista


Como é que vai ser, é só ir falando? Vocês vão me fazendo perguntas ou eu posso só começar? Bom, vou começar tá, o moço ali sorridente do cafezinho na mão já me disse que eu posso ir falando e falando e vocês pediram pra eu contar sobre o meu trabalho. Como eu praticamente moro nesse lugar, pra mim é fácil, tomara que eu não fale muita besteira.

Então, eu me chamo Rosália, sou natural de Salvador Bahia graças a Deus e a Iemanjá, sou massagista, mas antes de tudo perfeccionista. Nossa, como eu quero que ninguém nunca duvide de minha capacidade, sabe? Eu acho que sou assim desde criança, minha mãe era super exigente comigo na escola, meu pai não permitia que eu andasse com um fio de cabelo fora do lugar. Jesus amado, é difícil demais tentar agradar eles, os outros, o mundo. Eu luto e luto todo dia pra chegar aqui impecável: cabelo todo amarrado no coque, roupa sempre limpa e cheirosa, minha maquiagem eu até faço uma base clara bem forte sabe, depois uns traços asiáticos, um olho de gato e um blush forte vermelho, por que você sabe né? Nessa casa de massagem aqui em Belo Horizonte, ela nem é das mais chiques como vocês podem ver, ainda que, dentro da simplicidade, seja um pequeno palacete onde às vezes a gente é tratada como rainha, às vezes como escrava. Mas como eu ia dizendo, os clientes que batem aí nessa porta - eles menos chiques que nós isso eu afirmo - eles já vêm logo querendo que a gente seja asiática de pai e mãe. Ai Jesus, aí o senhor repare, eu, baiana de todos os santos e orixás, como que eu vou ser asiática gente? Tanto orgulho da minha pele morena e de tudo que é de mim e de minha terra, aí eu tenho que parecer asiática aqui para a patroa não reclamar. Olha, mas tudo bem, a última coisa que eu quero é receber reclamação, pois, como disse: perfeccionista né? Nossa, que sina essa de ser assim. Cá pra nós, na verdade, verdade mesmo, eu não me acho tão boa assim e rezo noite e dia para todos os santos, para tudo que é orixá, rogando que ninguém descubra um centímetro das minhas fraquezas. E olha, é difícil tá? Eu tenho uma dor no ombro, não é bem no ombro, você sabe, é no músculo do trapézio, que é inclusive onde eu mais gosto de trabalhar com meus clientes, imaginando que eles e elas todos têm uma dor parecida. E assim, essa dor, eu sei que ela não é dor de luxação nem de machucado, porque eu já fui no médico olhar e não tinha nada de errado. Eu acredito que é tipo uma dor dessas que uma psicóloga que eu atendi um dia me falou depois da massagem que eu fiz nela, dor psicossomática ela me disse, usou essa palavra que eu nem conhecia aí. Avalie, eu tenho esse problema em querer agradar demais e, segundo ela me falou, essa dor que eu sinto pode ser psicossomática, querendo dizer que eu me cobro muito e que isso tá me fazendo doer no meu músculo do trapézio esquerdo, muito fino e concentrado, eu consigo até tocar na dor aqui ó, olha eu tocando na dor que minha mãe me deixou de presente. Ah eu sou mesmo meio brincalhona, todo baiano é um pouco né? Minha mãezinha que Deus a tenha, ela me perdoa, só não sei se eu perdoo ela.

Mas enfim, foi lá em Salvador mesmo que eu aprendi a fazer massagem, trabalhei com isso uns cinco anos antes de vir pra cá. A dona desse lugar que vocês veem hoje me conheceu porque ela foi passar um verão em Morro de São Paulo e eu estava lá na praia, nas minhas férias, veja bem, fazendo massagem para tirar uns trocados a mais. Hoje eu me arrependo né? Eu devia estar só na praia curtindo, mas a gente que trabalha com massagem vive apertada e o turista que vai pra Morro já gosta de relaxar mais... não consegui dizer não. Ah, se eu pudesse voltar atrás. Resumindo: a gente ficou loguinho muito amiga, porque ela tinha uma escoliosezinha que lhe dava umas dores na coluna na hora de dormir e eu acho que eu consegui com umas quatro sessões achar uns confortos pra ela. De verdade, eu acho que metade do meu serviço foi o mar e o calor da Bahia que fizeram, mas tudo bem. Daí ela voltou para Belo Horizonte e uns dias depois eu já estava com essa proposta de emprego aqui.

Eu hoje aqui ganho bem mais que lá sabe? Aqui a dona é doida por dinheiro, parece que todo mundo aqui é meio assim na verdade, e aí eu tenho que vender minha alma pra esse trabalho. Tem dias que são só noites não dormidas e essa insônia quando me alcança pelos fins de semana, deixa minha dor no trapézio ainda maior e eu não tenho tempo nem de pensar nela quem dirá tratar, de deixar sarar. Eu preciso ser perfeita, preciso deixar sempre minha cara com essa base clara, com esse olho de peixe, essa roupa que vocês tão vendo que é meio apertada e até fingir que sou mesmo asiática assim lá de uma tataravó, tudo para agradar os outros. Agradar eles, que chegam aqui em tempo de morrer de estressados e sonhando com uma massagem que os faça esquecer um pouquinho dessas dores. Ah como eu queria um dia largar isso tudo e voltar pra terminar de curtir o meu verão de Morro sem nem pensar em massagem!

Bom, já tou vendo me alongar muito e eu tenho serviço me esperando, vou deixar de enrolação, eu sei que vocês têm mais o que fazer. Então, quando cheguei aqui, no primeiro dia eu vi, quer dizer, vi não, senti com meus dedos e mãos, que meus clientes eram mais, digamos, travados. Tipo o trânsito dessa cidade que vive “garrado”, mineira eu, repare! Mas sim, posso dizer que já vi de tudo aqui. Eu gosto quando chega alguém assim bem perdido, bem desavisado, bate na nossa porta e vai sendo carregado por esse cheirinho de incenso de patchuli bem gostoso, por esse ambiente calminho que é o oposto da loucura ali de fora como vocês podem ver. Tipo um rapaz que veio aqui semana passada, entrou por aqui se achando o bam bam bam, ele meio se achando um atleta, um ar de superioridade sabe, mas com um semblante péssimo de preocupação e uma cara de quem anda escondendo angústias até no dedão do pé, que, inclusive, os dois dedões estavam com unhas encravadas. Vai vendo quem é travado na vida. E aí corta para 15 minutos depois dessa cara fechada abrindo a nossa porta aqui, esse rapaz na minha frente se acabando de chorar no meio da massagem e eu perguntando com um ar meio maquiavélico, meio irônico: “a massagem está boa, senhor?” “ah sim, muito obrigada”. Nessas horas eu juro que minha dor no ombro até some, eu me divirto!

Como eu vi que vocês gostaram dessa história eu vou contar ela melhor. Isso foi semana passada, como eu falei. Foi assim, eu pedi para ele se deitar de bruços, ele tava meio envergonhado, dava pra ver. Aí eu passei um óleo aromático primeiro em todo o dorso. Depois fui com minhas mãos tateando como um cachorro farejador e buscando todos os nozinhos e, nossa senhora, eram muitos viu? Era praticamente um a cada centímetro das costas dele. O povo lá da minha Bahia não tinha isso não, viu, ô cabrunco pra ter tanta dor acumulada, como é que chega naquele estágio? Foi logo aí, dois minutos de massagem que eu vi aquele homem começar a chorar. Gente, eu juro que não me espanto mais. A vida é mesmo muito dura pra quem quer ser dura com ela. Eu sei, né? Eu tenho minhas dores também, tem aquela do ombro e outras que eu não falei ainda, mas posso falar um dia se quiserem. Meu problema é que, além de perfeccionista, eu sou massagista e não posso sair por aí falando que tenho tantas dores assim, minha patroa vai é me demitir e eu vou ficar sem emprego em canto nenhum.

Aí eu segui né, amassando aqueles nós com as minhas mãos, fazendo com que as pontas de meus dedos encontrassem as pontas soltas da vida dele. Eu tive a sensação que as lágrimas que escorriam de sua face eram lubrificante da alma, eram uma forma de ajudar com que meu corpo encontrasse de verdade o dele, que eu pudesse acessar os recônditos guardados por baixo de tanta dureza, de uma casca tão grossa. E assim era que ia, tocava ali, sentia o choro e se abria um vão onde eu podia agora enfiar a mão inteira, dedos até o punho, arrancando de lá um machucado antigo. Era como fazer vários partos ao redor da espinha, cada hora saindo lá de dentro uma ferida nova e com cara de gente. Eu senti o grito abafado do adolescente que ele não perdoou, da criança que sentia falta do amor da mãe, do jovem que seguia ali magoado pelas inconsequências não elaboradas da vida. Muita mágoa, muita mágoa. Quando eu subi com os joelhos por sobre os músculos das escápulas dele, eu senti que meu peso ecoava nas dores da vida dele ali juntas e não acessadas, escondidas, guardadas num abscesso de faltas e remorsos prestes a explodir. Do lado direito eram todas as dores só dele, mas do lado esquerdo eram todas as dores do mundo. A nuca era uma caixa lotada de inseguranças cuja fechadura estava trancada e presa por dentro com sete cadeados, mas só precisou de um polegar atento para se fazer abrir. Foi engraçado ele me contando tudo isso depois que acabou a nossa hora e eu meio que já sabia; ele já tinha me falado com o corpo e eu consegui ouvir.

Ou gente, eu até suei aqui lembrando desse rapaz. Vocês me pediram né, para falar sobre esse meu trabalho de massagista e eu assevero a vocês: tocar é um ato de cura. Eu faço minhas massagens sempre tocando nas pessoas do jeito que eu queria ser tocada, como eu acho que minhas feridas iriam respirar melhor depois daquele acesso, daquele vão livre que se abre e por onde minha mão vai encontrando a alma da pessoa e ali vai se ajeitando. Sarando. E eu só deixo alguém fazer isso em mim só às vezes, sabe? No fundo eu acho que todo mundo é um pouco igual àquele rapaz; eu acho que tem umas dores que a gente simplesmente nem sabe que existem. Ou não quer deixar que os outros saibam que elas existem.

E aí meu trabalho é esse aqui, moço, uma exorcista de dores presas em almas machucadas, apertada nesse vestido, sempre tentando agradar meus clientes e sonhando que vou voltar pra minha praia muito mas muito em breve pra curtir um verão de verdade. Obrigada por me ouvirem, o rapaz do cafezinho ali parece que gostou, me achou engraçada foi? Eu que agradeço! Pra terminar, se não for pedir demais, será que um de vocês têm algum analgésico? É que minha dor no ombro hoje tá me matando!

sábado, 21 de março de 2026

Outras como ti.


Por muito tempo eu quis te decifrar, como se nossa relação fosse meu enigma pessoal, minha dúvida ensolarada com cheiro e forma de mandacaru em flor. Minha admiração por montar esse quebra-cabeças sempre beirou o espanto de uma criança incapaz de entender onde cada pecinha modelada se encaixava para formar aquele quadro expressionista meio autêntico, meio copiado; meio clichê e meio obra prima: um cacto verde e vermelho, muito bonito e vistoso, reinando sozinho na aridez de um vale cinza metálico pedregoso. A pintura de um ser tão único quanto complexo, que me dá alimento, proteção e cuidado mesmo quando me machuca com seus espinhos.

Força da natureza brotando num rincão do mundo onde tudo é mais seco e mais duro, mais forte e grosso, a sua estreia não podia ter sido mais dramática. Não é à toa que eu te vejo como uma esfinge faraônica de outros desertos, uma Cleópatra moderna e tropical, mas igualmente poderosa, encravada na rocha onde fez morada compulsória, dominou rápido o chão por onde estão espalhadas suas raízes, espinhos e flores. Árida e doce, é impossível não sentir seu cheiro no primeiro vento do sertão, não te querer já no primeiro centímetro onde começa aquela estrada antiga. É impossível não desejar adiantar o tempo já à primeira vista da torre da igreja que ainda longínqua se mostra formosa irradiando austeridade e força sobre o vale pedregoso impecavelmente desenhado para ser seu lar. A espera do nosso encontro é sempre ansiosa, como o grito engasgado do navegante ao enxergar terra à vista, do astronauta ao pisar na lua, da criança perdida ao de longe encontrar a mãe, como uma fogueira que quer crescer e queimar nos luares de noites frias contrastadas pelo calor intenso de sua presença.

Meu espanto também passa pela constatação de que eu não tenho a sua força, definitivamente. Eu também sou filho do sol, mas você é mais que isso, você é sua herdeira nata de dias ainda mais difíceis. Como uma boa novela que já era sucesso antes de nascermos, seu script, assim como o meu, havia sido escrito gerações e gerações atrás. Os pais ausentes do sertão deixando as mães carentes de amor, estas abraçando o mundo para proteger a ninhada, ainda que sufocasse os filhos. Ah, mas se não são assim nossas famílias desse sertão místico onde o amor é profuso em tantas maneiras paradoxais. Aqui se ama o pai, mesmo quando ele te bate e te deixa. Ama-se a mãe mesmo se ela não te deixa ser quem você é. E assim, entre a ausência do pai e a carência rica da mãe protetora, você foi projeto de amor de uma família despedaçada pelo vento seco do desamor.

Essa herança é a sua e a de tantos como nós, não é? Não consigo não me espantar com tanta dor herdada. Uma dor insuportável e incapacitante em tantos momentos, dor que te impede até mesmo de amar e de superar a aridez da rocha que te nutre mesmo quando muito chove. Essa dor te faz sofrer por não lhe permitir confiar na proteção e segurança que alguém possa, ainda que por acaso, oferecer. Claro, afinal quem foi que sempre lhe segurou senão suas próprias mãos e raízes agarradas com toda força ao chão senão você mesma?

Essa natureza bravia lhe formou flor de mandacaru e você aceitou ser, aceitou ser bonita e vistosa no meio de uma coroa espinhosa, no seio solitário de uma rocha quente, cheia de cor viva, de rubor. Você surge e ressurge a cada dia de sol mais judiada por aqueles que só querem o néctar de sua flor quente e suculenta, mas se espetam profundo nos seus espinhos. Você até machuca, eu sei, mas espinhos são mesmo para machucar.

E assim ressurge viçosa, moderna, corajosa, recolhendo os pedaços a cada desilusão e se refazendo rígida e pontuda. Cada espetada, é o sangue derramado, seu e de quem te alcança com as mãos. Como é difícil e solitária a vida da majestade faraó do sertão, protegida da dor por uma redoma impenetrável, mas cercada de dor pelos mesmos espinhos que bem podiam te deixar amar mais forte.

Se serve de consolo, acredite, embora reinante no céu azul ensolarado desse nosso vale encantado, em outras terras, em outras rochas, existem outras de ti. Existem outros de mim também, embasbacados com esse labirinto difícil de decifrar e que está longe, muito longe, de ser resolvido com essas palavras vagas e meio tortas.

Meu espanto diário com a sua complexidade é o meu companheiro nessa jornada mística de descobrimento, afinal você é a protagonista do meu romance ainda não contado, da história mais bonita que um dia eu possa inventar. Se a sua luz eu jogo sobre mim para me desfolhar e ser espinho, no seu fogo vermelho carnal eu me banho para ser mais forte e intenso.  

Obrigado.

Com amor, Isaac.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Encantamento com a finitude.

Eu queria falar sobre o amor, mas falar sobre isso é olhar muito de perto para o abismo que é a finitude da vida. Então eu vou falar disso, mas fingir que não é sobre amor, vou dizer que é sobre a finitude da vida em si (sabendo que é sobre o amor).

A primeira coisa que a finitude me traz é o medo. Eu tento entendê-lo para através dele compreender o mundo, vivenciar os lutos e só assim esquecer que ele existe. O último balanço da rede, o extinguir da estrela cadente, o último aplauso do último show do artista, o último trago antes de começar o retorno à sobriedade. O medo é o oposto da magia, mas não como antagônico e sim como complemento. Afinal, o medo é a dose de morte na vida e a dose de vida na morte.

É preciso andar na ponte do rio que cai dos medos para se entregar à magia. A magia que é o encantamento, a esperança, a alegria e o conformismo de que isso tudo acaba, mas mesmo acabando, deixou sua história e fez alguma mudança no mundo.

Veja bem, veja essas linhas, por exemplo. Elas não são nada além de traços, agrupamentos de alguma substância química que, em si, não representam nada. Aliás, é preciso um bocado de informação para entender que esses traços arredondados que se juntam e formam palavras, que contam uma história. Eles - os traços - movimentam alguém, causam embaraço, indignação, interesse. É preciso que um ser tenha consciência, tenha visão, que entenda o português, que enxergue esses traços no espectro de luz em que eles foram desenhados, que tenha capacidade de interpretação, compreensão, todo esse quebra-cabeças para transmitir uma mensagem; uma informação partindo de alguém que está vivo hoje mas que vai morrer para alguém que pode nem estar vivo hoje, mas que também vai morrer.

Não falo a partir de uma ótica pessimista, afinal não estou deprimido com a realidade do sopro de vida que me foi dado. Pelo contrário, enxergar o medo da finitude da vida é perceber o tanto de cor que existe em uma aquarela, é sentir o calor de um abraço no frio escuro, é a pequena luz que pisca no céu opaco. É o tudo traduzido na linguagem da vida, é como enxergar um deus, deixar-se seduzir pelo mistério e nele encontrar respostas abertas para tudo que não sabemos o que é. É o complemento um do outro.

Você já parou pra pensar que um dia você acordou dentro de uma máquina super potente, cheia de energia, que praticamente se gerencia a si própria de forma automática, mas que te colocou para tomar as decisões mais importantes? Como compensação para essa árdua tarefa, ela te deu prazeres e te entregou o amor, para que você visse que o sopro de vida tem sim uma função, mudar o mundo de alguma forma. E essa magia só pode ser o amor, pois ela é em parte triste e preocupante, mas também é em parte inspiradora e alegre.

Por isso que entre o medo e a magia existe toda a vida. A vida é o abismo e olhar para dentro dele demanda coragem para deixar sua marca no mundo. 

Não tenha medo do abismo, o amor é o desafio e também a recompensa para se justificar a nossa parca e ínfima existência nesse pequeno planeta que, assim como tudo nessa existência, também um dia vai se acabar.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Do nada ao nada, uma hora vai dar certo.

 


O título desse texto, embora seja aparentemente um pouco deprimente, não é sobre vazios e faltas. Talvez seja justamente o contrário, o de encontrar sentido e preenchimentos para um minúsculo momento que vai do nada ao nada, do zero que existia antes de nascer ao algo diferente do zero, digamos, um novo zero, depois que a gente se vai.

Essa reflexão me bateu numa entrevista que tive com uma pessoa que estava privada de liberdade há uns dias atrás. Estávamos só eu e ele e tínhamos a mesma idade, o que me chamou logo a atenção. Na sala, uma cadeira de escola para cada um e uma mesa nos separando. Entre nós, papéis onde eu anotava coisas que não eram ele, mas uma informação sobre ele que só fazia sentido no mundo dos homens. “Diga-me seu nome, seu número de identificação, onde corre o seu processo, o que houve nesse dia, você precisa de alguma coisa?”.

E ele me dava respostas que só faziam sentido se entendêssemos as coisas dos homens, sobre o tempo do homem, sobre a vida do homem. Ele, preso, porque fez alguma coisa desaprovada por um homem, porque foi assim que convencionaram os homens, porque seus números e dados – ficções usadas para decidir sobre sua vida – disseram que ali ele deveria estar. Eu, solto porque alguém me permitiu, porque foi assim que convencionaram os homens, porque meus números e dados exclusivamente humanos me deram um rumo diferente daquele que diante de mim se sentava na cadeirinha de escola, embora tivéssemos nascido praticamente na mesma data há uns anos atrás.

Eu, filho da terra e da água que habitam esse lugarzinho há bilhões de anos, pequenas partes agrupadas em uma probabilidade minúscula de acontecer, mas que aconteceu. E justamente naquele dia estava eu diante dele, filho da terra, meu irmão, partículas diferentes de água e terra reunidas para formar outro alguém igual - embora diferente - de mim.

Às vezes me pergunto: por que não falamos sobre o tempo das estrelas? Não nos esqueçamos para não perder a ternura jamais: para a natureza éramos apenas eu e ele, duas cadeiras e uma mesa e todo o universo conspirando para que no minúsculo momento marcado entre o nascimento e a morte, pudéssemos ver isso tudo que se passa aqui fora – e aqui dentro. Entre o que vinha antes do nada e o que virá depois do nada, existe uma coisa acontecendo para todos, que é a chance de experimentar a magia e o inferno que é estar vivo.

Éramos nada há alguns anos atrás. Éramos possibilidades e nos tornamos reais. E daqui a alguns anos, seremos apenas uma versão diferente do nada, porque nossas partículas se tornarão outras coisas na dança maluca dessa pequena esfera metálica que flutua sobre o vácuo.

E justamente por não falarmos tanto assim sobre o tempo das estrelas é que estávamos diante do absurdo dessa existência infeliz em que uma pessoa anda solta e outra, presa. Entre nós não havia diferença substancial: as estrelas nos formaram igualzinho, nós nascemos iguaizinhos e vamos morrer para virar mais ou menos a mesma coisa.

Eu não tenho condições de julgar as ações humanas, especialmente as que o levaram até ali, e, se alguém acha que tem, tampouco me oponho. Creio que no nosso atrasado jeito de viver é apenas mais um dos males a que nos submetemos. Salvamos a consciência sacrificando existências. Sempre foi assim, afinal, anda tudo muito mais errado no mundo dos humanos do que certo: nós estamos simplesmente acabando com nossas chances de sobrevivência no planeta vivendo uma vida injusta, ridícula e absurdamente esmagadora para outras pessoas e espécies que compartilham a terra conosco. Não existe uma criança, uma flor, uma formiga ou ornitorrinco que não esteja ameaçado por uma bomba nuclear, por um rio derramando mercúrio ou por uma chaminé vomitando enxofre.

Então o que eu pude dizer para a pessoa sobre as coisas humanas que o oprimiam? Profissionalmente, falei as coisas mundanas que tinha que falar. Mas disse ainda: “aguente firme e seja paciente que há tempo para ser várias coisas nessa vida, esse não precisa ser o seu fim, pois tudo é um novo início”.

Foi o melhor que consegui falar para aliar o mundo humano ao mundo da natureza, mostrar que o nosso minúsculo tempo de existência aqui na terra é grande o suficiente para abraçar o mundo da natureza – que é muito maior que a cabecinha dos homens.

Entre o nada e o nada pode acontecer tudo. E essa é a beleza que vale pra mim, pra você e pra todos.

Estrelas e corações


Uma estrela explodiu lá longe. 

Na noite escura do céu, quando uma estrela explode é difícil não perceber o clarão lá no alto: as cores e formas se engolindo numa dança cósmica inebriante, como se fizessem rodopios ao som de caixa e tambor e ao toque de mãos divinas. Algo como uma pequena escola de samba suspensa no infinito.

O que foi primeiro um pequeno brilho no céu, bem pequeno, foi crescendo aos poucos. Alguns dias depois da explosão, era como se uma luz tomasse conta da noite e não houvesse mais outras estrelas para se enxergar naquele momento. Era tão claro, como se aquela luz deixasse enxergar até mesmo o ar. 

Eu vi essa estrela explodir. Vi seus pedacinhos chegando até mim, me atravessando, me transformando, combinando e reorganizando em uma nova composição. A princípio eu neguei que aquela luz daquela estrela lá longe pudesse me mudar. Quem é ela? Quem ela acha que é? Eu não pedi nenhuma combinação nova em mim. Mas, sob aquela luz que iluminava o céu da noite, eu dancei. Dancei ao ritmo do samba que ela me deixava ver e ouvir, rodopiando, atravessando em si mesma e em mim também, me enchendo de vida mesmo sendo ela só um feixe de luz vagando apática à minha existência.

Depois que ela entrou em mim, seu brilho já era eu.

E aí meu coração explodiu também. Nas noites que insistiam em escurecer, tudo era luz, tudo era cósmico; a existência era uma sinfonia gostosa de se ouvir. Não sei se quando meu coração explodiu ele deixou de existir, talvez por um breve momento ele seja mais que um coração e menos que uma estrela, mas eu sei que ele também existe hoje em outros corações. E depois disso, ninguém mais vagou com apatia, pois o universo estava rico em beleza, em toque, em cura.

O que explodiu lá longe agora brilha em todo lugar, inclusive aqui perto.

domingo, 30 de outubro de 2022

Eu, quem?

Venho tentando ser eu há muito tempo, mas às vezes desisto. É muito difícil encontrar uma razão que justifique o esforço que é se mostrar uma pessoa só, sempre e sempre. Além disso, cadê o meu eu que gostava de fingir ser professor, que brincava o tempo inteiro e adorava olhar para as estrelas, que dançava sem vergonha? Cadê minha criança?

Não acho que seja privilégio meu sofrer sozinho na busca de escolhas justas para mim e para o mundo, livre de interferências e sólida face às incertezas da vida. Justas em parte, porque eu sou fraco, egoísta e minto. Não sei o que fazer com o amor que depositam em mim e tenho dificuldades em retribuir e ser recíproco. Admitir isso me deixa mais próximo do que eu quero ser, claro, mas não diminui aquele esforço. E esse movimento de Sísifo, eternamente subindo pedra morro acima e vê-la rolar desabalada morro abaixo, todo santo dia, só traz angústia.

Tenho inveja de quem crê em deuses ou astros, signos ou mãos, queria ter essas cartilhas ou muletas para ser menos triste. Abraçar a simplicidade, a idade, a cidade, a felicidade, que para Nietzsche é a ignorância. E eu concordo com ele por um lado: quanto menos você se importa com os problemas, menos eles te incomodam. A questão é que muita gente toma o caminho oposto, tem na ignorância a chave para a maldade (consigo e com os outros) e não para a felicidade. Afinal, não é preciso ser triste para ser consciente, dá para ser triste e ser um filho da puta também.

Nessa luta para descobrir quem sou, preciso me ouvir mais e resgatar minha criança. Quebrar a casca grossa do adulto e deixar sair o que me aprisiona e entrar o que me liberta. Eu vou iniciar esse processo e desistir várias vezes, mas não vou deixar de fazer, prometo. Esse caos aqui dentro, essa confusão, vai sempre existir, eu só preciso respirar e olhar para estrelas e dançar que vai dar certo.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

A luz acesa no teto da sala.


Então você nasce. Assim, simplesmente nasce. Acenderam um interruptor e agora aquela luz no teto da sala que vê e escuta, que toca e é tocado, é você. Brilhando todo dia sem saber o porquê e o como, vendo as coisas ao seu redor existirem e você supostamente tendo que fazer alguma coisa a respeito delas: comê-las, se defender delas, usá-las como arma para conquistar alguma coisa, às vezes todas ao mesmo tempo, às vezes nenhuma delas. Até que um dia um dia você olha para o espelho e diz, “esse sou eu”, esse nariz feio é meu, esse andar esquisito de como quem está pulando é meu, esse desconforto de não saber olhar as pessoas no olho é meu, a incapacidade de dizer não em muitos momentos e a vontade de agradar todo mundo ainda que custe a minha própria saúde são minhas. E é claro que tudo que é seu é também produto dos meios que lhe criaram, afinal você também aprende que da semente do feijão vai nascer outro feijão. Mas não é o mesmo feijão, é outro, só que parecido. Um feijão que é introspectivo e guarda as mágoas sem saber se abrir, igual ao meu pai, e dependente da companhia de alguém ainda que esse alguém seja ruim para mim, igual à minha mãe.

Você também aprende que aquele interruptor pode ser desligado, mas mesmo assim não desliga - ou não tem coragem de desligar. Sua luz ilumina outras pessoas e você sabe que a tristeza não é outra coisa senão o outro lado da alegria, assim como o frio da luz apagada é só o outro lado do cheiro e da cor dela acesa. E também porque, se você pensar bem, há outras formas menos dolorosas de enxergar o escuro e de fazer com que o seu redor tenha mais beleza e mais prazer.

Afinal de contas, de um ponto de vista, você nunca se mexeu, tudo se mexeu o tempo inteiro na sua frente com a sua participação. Igual à luz no teto da sala, você viu a sua vida acontecer na sua frente e embora os outros digam que você está se mexendo, você viu tudo isso pelo seu olhar, pela sua luz. É por isso que não dá para fugir dos problemas, afinal você em Paris, em Roraima ou em Varginha é ainda você. Apague a luz e ainda vai ser você. Too bad.

É esse, então, o único e o grande custo da sua luz: o dever de enxergar as coisas de forma diferente é de ninguém senão seu. As mágoas guardadas, a introspecção do pai ou a carência afetiva da mãe são minhas também, elas são algumas das coisas que a minha luz enxerga, mas o peso de querer viver nessas circunstâncias é meu enquanto aquele interruptor estiver aceso. Essa mesma luz que no espelho diz “esse sou eu”, deixa que eu faça tudo para brilhar ainda mais, me libertar, experimentar, fazer diferente, ousar, criar, passar uma tinta rosa no meio da cara como se fosse carnaval, tocar as flores mais bonitas e coloridas do jardim, sair na rua vestido de um novo eu, dançando e andando com pulinhos ouvindo gloria groove. No fim das contas, a constatação é essa: é ridícula a quantidade de coisas que dá para enxergar por uma luz só no teto da sala. Ufa, ainda bem!