Por muito tempo eu quis te decifrar, como se nossa relação fosse meu enigma pessoal, minha dúvida ensolarada com cheiro e forma de mandacaru em flor. Minha admiração por montar esse quebra-cabeças sempre beirou o espanto de uma criança incapaz de entender onde cada pecinha modelada se encaixava para formar aquele quadro expressionista meio autêntico, meio copiado; meio clichê e meio obra prima: um cacto verde e vermelho, muito bonito e vistoso, reinando sozinho na aridez de um vale cinza metálico pedregoso. A pintura de um ser tão único quanto complexo, que me dá alimento, proteção e cuidado mesmo quando me machuca com seus espinhos.
Força da natureza brotando num rincão do mundo onde tudo é
mais seco e mais duro, mais forte e grosso, a sua estreia não podia ter sido
mais dramática. Não é à toa que eu te vejo como uma esfinge faraônica de outros
desertos, uma Cleópatra moderna e tropical, mas igualmente poderosa, encravada na
rocha onde fez morada compulsória, dominou rápido o chão por onde estão espalhadas
suas raízes, espinhos e flores. Árida e doce, é impossível não sentir seu
cheiro no primeiro vento do sertão, não te querer já no primeiro centímetro
onde começa aquela estrada antiga. É impossível não desejar adiantar o tempo já
à primeira vista da torre da igreja que ainda longínqua se mostra formosa
irradiando austeridade e força sobre o vale pedregoso impecavelmente desenhado
para ser seu lar. A espera do nosso encontro é sempre ansiosa, como o grito
engasgado do navegante ao enxergar terra à vista, do astronauta ao pisar na
lua, da criança perdida ao de longe encontrar a mãe, como uma fogueira que quer
crescer e queimar nos luares de noites frias contrastadas pelo calor intenso de
sua presença.
Meu espanto também passa pela constatação de que eu não
tenho a sua força, definitivamente. Eu também sou filho do sol, mas você é mais
que isso, você é sua herdeira nata de dias ainda mais difíceis. Como uma boa
novela que já era sucesso antes de nascermos, seu script, assim como o meu, havia
sido escrito gerações e gerações atrás. Os pais ausentes do sertão deixando as mães
carentes de amor, estas abraçando o mundo para proteger a ninhada, ainda que sufocasse
os filhos. Ah, mas se não são assim nossas famílias desse sertão místico onde o
amor é profuso em tantas maneiras paradoxais. Aqui se ama o pai, mesmo quando
ele te bate e te deixa. Ama-se a mãe mesmo se ela não te deixa ser quem você é.
E assim, entre a ausência do pai e a carência rica da mãe protetora, você foi projeto
de amor de uma família despedaçada pelo vento seco do desamor.
Essa herança é a sua e a de tantos como nós, não é? Não
consigo não me espantar com tanta dor herdada. Uma dor insuportável e
incapacitante em tantos momentos, dor que te impede até mesmo de amar e de superar
a aridez da rocha que te nutre mesmo quando muito chove. Essa dor te faz sofrer
por não lhe permitir confiar na proteção e segurança que alguém possa, ainda
que por acaso, oferecer. Claro, afinal quem foi que sempre lhe segurou senão
suas próprias mãos e raízes agarradas com toda força ao chão senão você mesma?
Essa natureza bravia lhe formou flor de mandacaru e você
aceitou ser, aceitou ser bonita e vistosa no meio de uma coroa espinhosa, no seio
solitário de uma rocha quente, cheia de cor viva, de rubor. Você surge e ressurge
a cada dia de sol mais judiada por aqueles que só querem o néctar de sua flor quente
e suculenta, mas se espetam profundo nos seus espinhos. Você até machuca, eu
sei, mas espinhos são mesmo para machucar.
E assim ressurge viçosa, moderna, corajosa, recolhendo os
pedaços a cada desilusão e se refazendo rígida e pontuda. Cada espetada, é o
sangue derramado, seu e de quem te alcança com as mãos. Como é difícil e solitária
a vida da majestade faraó do sertão, protegida da dor por uma redoma impenetrável,
mas cercada de dor pelos mesmos espinhos que bem podiam te deixar amar mais
forte.
Se serve de consolo, acredite, embora reinante no céu azul
ensolarado desse nosso vale encantado, em outras terras, em outras rochas, existem
outras de ti. Existem outros de mim também, embasbacados com esse labirinto
difícil de decifrar e que está longe, muito longe, de ser resolvido com essas
palavras vagas e meio tortas.
Meu espanto diário com a sua complexidade é o meu companheiro
nessa jornada mística de descobrimento, afinal você é a protagonista do meu
romance ainda não contado, da história mais bonita que um dia eu possa inventar.
Se a sua luz eu jogo sobre mim para me desfolhar e ser espinho, no seu fogo
vermelho carnal eu me banho para ser mais forte e intenso.
Obrigado.
Com amor, Isaac.

Nenhum comentário:
Postar um comentário