segunda-feira, 23 de março de 2026

A massagista


Como é que vai ser, é só ir falando? Vocês vão me fazendo perguntas ou eu posso só começar? Bom, vou começar tá, o moço ali sorridente do cafezinho na mão já me disse que eu posso ir falando e falando e vocês pediram pra eu contar sobre o meu trabalho. Como eu praticamente moro nesse lugar, pra mim é fácil, tomara que eu não fale muita besteira.

Então, eu me chamo Rosália, sou natural de Salvador Bahia graças a Deus e a Iemanjá, sou massagista, mas antes de tudo perfeccionista. Nossa, como eu quero que ninguém nunca duvide de minha capacidade, sabe? Eu acho que sou assim desde criança, minha mãe era super exigente comigo na escola, meu pai não permitia que eu andasse com um fio de cabelo fora do lugar. Jesus amado, é difícil demais tentar agradar eles, os outros, o mundo. Eu luto e luto todo dia pra chegar aqui impecável: cabelo todo amarrado no coque, roupa sempre limpa e cheirosa, minha maquiagem eu até faço uma base clara bem forte sabe, depois uns traços asiáticos, um olho de gato e um blush forte vermelho, por que você sabe né? Nessa casa de massagem aqui em Belo Horizonte, ela nem é das mais chiques como vocês podem ver, ainda que, dentro da simplicidade, seja um pequeno palacete onde às vezes a gente é tratada como rainha, às vezes como escrava. Mas como eu ia dizendo, os clientes que batem aí nessa porta - eles menos chiques que nós isso eu afirmo - eles já vêm logo querendo que a gente seja asiática de pai e mãe. Ai Jesus, aí o senhor repare, eu, baiana de todos os santos e orixás, como que eu vou ser asiática gente? Tanto orgulho da minha pele morena e de tudo que é de mim e de minha terra, aí eu tenho que parecer asiática aqui para a patroa não reclamar. Olha, mas tudo bem, a última coisa que eu quero é receber reclamação, pois, como disse: perfeccionista né? Nossa, que sina essa de ser assim. Cá pra nós, na verdade, verdade mesmo, eu não me acho tão boa assim e rezo noite e dia para todos os santos, para tudo que é orixá, rogando que ninguém descubra um centímetro das minhas fraquezas. E olha, é difícil tá? Eu tenho uma dor no ombro, não é bem no ombro, você sabe, é no músculo do trapézio, que é inclusive onde eu mais gosto de trabalhar com meus clientes, imaginando que eles e elas todos têm uma dor parecida. E assim, essa dor, eu sei que ela não é dor de luxação nem de machucado, porque eu já fui no médico olhar e não tinha nada de errado. Eu acredito que é tipo uma dor dessas que uma psicóloga que eu atendi um dia me falou depois da massagem que eu fiz nela, dor psicossomática ela me disse, usou essa palavra que eu nem conhecia aí. Avalie, eu tenho esse problema em querer agradar demais e, segundo ela me falou, essa dor que eu sinto pode ser psicossomática, querendo dizer que eu me cobro muito e que isso tá me fazendo doer no meu músculo do trapézio esquerdo, muito fino e concentrado, eu consigo até tocar na dor aqui ó, olha eu tocando na dor que minha mãe me deixou de presente. Ah eu sou mesmo meio brincalhona, todo baiano é um pouco né? Minha mãezinha que Deus a tenha, ela me perdoa, só não sei se eu perdoo ela.

Mas enfim, foi lá em Salvador mesmo que eu aprendi a fazer massagem, trabalhei com isso uns cinco anos antes de vir pra cá. A dona desse lugar que vocês veem hoje me conheceu porque ela foi passar um verão em Morro de São Paulo e eu estava lá na praia, nas minhas férias, veja bem, fazendo massagem para tirar uns trocados a mais. Hoje eu me arrependo né? Eu devia estar só na praia curtindo, mas a gente que trabalha com massagem vive apertada e o turista que vai pra Morro já gosta de relaxar mais... não consegui dizer não. Ah, se eu pudesse voltar atrás. Resumindo: a gente ficou loguinho muito amiga, porque ela tinha uma escoliosezinha que lhe dava umas dores na coluna na hora de dormir e eu acho que eu consegui com umas quatro sessões achar uns confortos pra ela. De verdade, eu acho que metade do meu serviço foi o mar e o calor da Bahia que fizeram, mas tudo bem. Daí ela voltou para Belo Horizonte e uns dias depois eu já estava com essa proposta de emprego aqui.

Eu hoje aqui ganho bem mais que lá sabe? Aqui a dona é doida por dinheiro, parece que todo mundo aqui é meio assim na verdade, e aí eu tenho que vender minha alma pra esse trabalho. Tem dias que são só noites não dormidas e essa insônia quando me alcança pelos fins de semana, deixa minha dor no trapézio ainda maior e eu não tenho tempo nem de pensar nela quem dirá tratar, de deixar sarar. Eu preciso ser perfeita, preciso deixar sempre minha cara com essa base clara, com esse olho de peixe, essa roupa que vocês tão vendo que é meio apertada e até fingir que sou mesmo asiática assim lá de uma tataravó, tudo para agradar os outros. Agradar eles, que chegam aqui em tempo de morrer de estressados e sonhando com uma massagem que os faça esquecer um pouquinho dessas dores. Ah como eu queria um dia largar isso tudo e voltar pra terminar de curtir o meu verão de Morro sem nem pensar em massagem!

Bom, já tou vendo me alongar muito e eu tenho serviço me esperando, vou deixar de enrolação, eu sei que vocês têm mais o que fazer. Então, quando cheguei aqui, no primeiro dia eu vi, quer dizer, vi não, senti com meus dedos e mãos, que meus clientes eram mais, digamos, travados. Tipo o trânsito dessa cidade que vive “garrado”, mineira eu, repare! Mas sim, posso dizer que já vi de tudo aqui. Eu gosto quando chega alguém assim bem perdido, bem desavisado, bate na nossa porta e vai sendo carregado por esse cheirinho de incenso de patchuli bem gostoso, por esse ambiente calminho que é o oposto da loucura ali de fora como vocês podem ver. Tipo um rapaz que veio aqui semana passada, entrou por aqui se achando o bam bam bam, ele meio se achando um atleta, um ar de superioridade sabe, mas com um semblante péssimo de preocupação e uma cara de quem anda escondendo angústias até no dedão do pé, que, inclusive, os dois dedões estavam com unhas encravadas. Vai vendo quem é travado na vida. E aí corta para 15 minutos depois dessa cara fechada abrindo a nossa porta aqui, esse rapaz na minha frente se acabando de chorar no meio da massagem e eu perguntando com um ar meio maquiavélico, meio irônico: “a massagem está boa, senhor?” “ah sim, muito obrigada”. Nessas horas eu juro que minha dor no ombro até some, eu me divirto!

Como eu vi que vocês gostaram dessa história eu vou contar ela melhor. Isso foi semana passada, como eu falei. Foi assim, eu pedi para ele se deitar de bruços, ele tava meio envergonhado, dava pra ver. Aí eu passei um óleo aromático primeiro em todo o dorso. Depois fui com minhas mãos tateando como um cachorro farejador e buscando todos os nozinhos e, nossa senhora, eram muitos viu? Era praticamente um a cada centímetro das costas dele. O povo lá da minha Bahia não tinha isso não, viu, ô cabrunco pra ter tanta dor acumulada, como é que chega naquele estágio? Foi logo aí, dois minutos de massagem que eu vi aquele homem começar a chorar. Gente, eu juro que não me espanto mais. A vida é mesmo muito dura pra quem quer ser dura com ela. Eu sei, né? Eu tenho minhas dores também, tem aquela do ombro e outras que eu não falei ainda, mas posso falar um dia se quiserem. Meu problema é que, além de perfeccionista, eu sou massagista e não posso sair por aí falando que tenho tantas dores assim, minha patroa vai é me demitir e eu vou ficar sem emprego em canto nenhum.

Aí eu segui né, amassando aqueles nós com as minhas mãos, fazendo com que as pontas de meus dedos encontrassem as pontas soltas da vida dele. Eu tive a sensação que as lágrimas que escorriam de sua face eram lubrificante da alma, eram uma forma de ajudar com que meu corpo encontrasse de verdade o dele, que eu pudesse acessar os recônditos guardados por baixo de tanta dureza, de uma casca tão grossa. E assim era que ia, tocava ali, sentia o choro e se abria um vão onde eu podia agora enfiar a mão inteira, dedos até o punho, arrancando de lá um machucado antigo. Era como fazer vários partos ao redor da espinha, cada hora saindo lá de dentro uma ferida nova e com cara de gente. Eu senti o grito abafado do adolescente que ele não perdoou, da criança que sentia falta do amor da mãe, do jovem que seguia ali magoado pelas inconsequências não elaboradas da vida. Muita mágoa, muita mágoa. Quando eu subi com os joelhos por sobre os músculos das escápulas dele, eu senti que meu peso ecoava nas dores da vida dele ali juntas e não acessadas, escondidas, guardadas num abscesso de faltas e remorsos prestes a explodir. Do lado direito eram todas as dores só dele, mas do lado esquerdo eram todas as dores do mundo. A nuca era uma caixa lotada de inseguranças cuja fechadura estava trancada e presa por dentro com sete cadeados, mas só precisou de um polegar atento para se fazer abrir. Foi engraçado ele me contando tudo isso depois que acabou a nossa hora e eu meio que já sabia; ele já tinha me falado com o corpo e eu consegui ouvir.

Ou gente, eu até suei aqui lembrando desse rapaz. Vocês me pediram né, para falar sobre esse meu trabalho de massagista e eu assevero a vocês: tocar é um ato de cura. Eu faço minhas massagens sempre tocando nas pessoas do jeito que eu queria ser tocada, como eu acho que minhas feridas iriam respirar melhor depois daquele acesso, daquele vão livre que se abre e por onde minha mão vai encontrando a alma da pessoa e ali vai se ajeitando. Sarando. E eu só deixo alguém fazer isso em mim só às vezes, sabe? No fundo eu acho que todo mundo é um pouco igual àquele rapaz; eu acho que tem umas dores que a gente simplesmente nem sabe que existem. Ou não quer deixar que os outros saibam que elas existem.

E aí meu trabalho é esse aqui, moço, uma exorcista de dores presas em almas machucadas, apertada nesse vestido, sempre tentando agradar meus clientes e sonhando que vou voltar pra minha praia muito mas muito em breve pra curtir um verão de verdade. Obrigada por me ouvirem, o rapaz do cafezinho ali parece que gostou, me achou engraçada foi? Eu que agradeço! Pra terminar, se não for pedir demais, será que um de vocês têm algum analgésico? É que minha dor no ombro hoje tá me matando!

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