sábado, 21 de março de 2026

Outras como ti.


Por muito tempo eu quis te decifrar, como se nossa relação fosse meu enigma pessoal, minha dúvida ensolarada com cheiro e forma de mandacaru em flor. Minha admiração por montar esse quebra-cabeças sempre beirou o espanto de uma criança incapaz de entender onde cada pecinha modelada se encaixava para formar aquele quadro expressionista meio autêntico, meio copiado; meio clichê e meio obra prima: um cacto verde e vermelho, muito bonito e vistoso, reinando sozinho na aridez de um vale cinza metálico pedregoso. A pintura de um ser tão único quanto complexo, que me dá alimento, proteção e cuidado mesmo quando me machuca com seus espinhos.

Força da natureza brotando num rincão do mundo onde tudo é mais seco e mais duro, mais forte e grosso, a sua estreia não podia ter sido mais dramática. Não é à toa que eu te vejo como uma esfinge faraônica de outros desertos, uma Cleópatra moderna e tropical, mas igualmente poderosa, encravada na rocha onde fez morada compulsória, dominou rápido o chão por onde estão espalhadas suas raízes, espinhos e flores. Árida e doce, é impossível não sentir seu cheiro no primeiro vento do sertão, não te querer já no primeiro centímetro onde começa aquela estrada antiga. É impossível não desejar adiantar o tempo já à primeira vista da torre da igreja que ainda longínqua se mostra formosa irradiando austeridade e força sobre o vale pedregoso impecavelmente desenhado para ser seu lar. A espera do nosso encontro é sempre ansiosa, como o grito engasgado do navegante ao enxergar terra à vista, do astronauta ao pisar na lua, da criança perdida ao de longe encontrar a mãe, como uma fogueira que quer crescer e queimar nos luares de noites frias contrastadas pelo calor intenso de sua presença.

Meu espanto também passa pela constatação de que eu não tenho a sua força, definitivamente. Eu também sou filho do sol, mas você é mais que isso, você é sua herdeira nata de dias ainda mais difíceis. Como uma boa novela que já era sucesso antes de nascermos, seu script, assim como o meu, havia sido escrito gerações e gerações atrás. Os pais ausentes do sertão deixando as mães carentes de amor, estas abraçando o mundo para proteger a ninhada, ainda que sufocasse os filhos. Ah, mas se não são assim nossas famílias desse sertão místico onde o amor é profuso em tantas maneiras paradoxais. Aqui se ama o pai, mesmo quando ele te bate e te deixa. Ama-se a mãe mesmo se ela não te deixa ser quem você é. E assim, entre a ausência do pai e a carência rica da mãe protetora, você foi projeto de amor de uma família despedaçada pelo vento seco do desamor.

Essa herança é a sua e a de tantos como nós, não é? Não consigo não me espantar com tanta dor herdada. Uma dor insuportável e incapacitante em tantos momentos, dor que te impede até mesmo de amar e de superar a aridez da rocha que te nutre mesmo quando muito chove. Essa dor te faz sofrer por não lhe permitir confiar na proteção e segurança que alguém possa, ainda que por acaso, oferecer. Claro, afinal quem foi que sempre lhe segurou senão suas próprias mãos e raízes agarradas com toda força ao chão senão você mesma?

Essa natureza bravia lhe formou flor de mandacaru e você aceitou ser, aceitou ser bonita e vistosa no meio de uma coroa espinhosa, no seio solitário de uma rocha quente, cheia de cor viva, de rubor. Você surge e ressurge a cada dia de sol mais judiada por aqueles que só querem o néctar de sua flor quente e suculenta, mas se espetam profundo nos seus espinhos. Você até machuca, eu sei, mas espinhos são mesmo para machucar.

E assim ressurge viçosa, moderna, corajosa, recolhendo os pedaços a cada desilusão e se refazendo rígida e pontuda. Cada espetada, é o sangue derramado, seu e de quem te alcança com as mãos. Como é difícil e solitária a vida da majestade faraó do sertão, protegida da dor por uma redoma impenetrável, mas cercada de dor pelos mesmos espinhos que bem podiam te deixar amar mais forte.

Se serve de consolo, acredite, embora reinante no céu azul ensolarado desse nosso vale encantado, em outras terras, em outras rochas, existem outras de ti. Existem outros de mim também, embasbacados com esse labirinto difícil de decifrar e que está longe, muito longe, de ser resolvido com essas palavras vagas e meio tortas.

Meu espanto diário com a sua complexidade é o meu companheiro nessa jornada mística de descobrimento, afinal você é a protagonista do meu romance ainda não contado, da história mais bonita que um dia eu possa inventar. Se a sua luz eu jogo sobre mim para me desfolhar e ser espinho, no seu fogo vermelho carnal eu me banho para ser mais forte e intenso.  

Obrigado.

Com amor, Isaac.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Encantamento com a finitude.

Eu queria falar sobre o amor, mas falar sobre isso é olhar muito de perto para o abismo que é a finitude da vida. Então eu vou falar disso, mas fingir que não é sobre amor, vou dizer que é sobre a finitude da vida em si (sabendo que é sobre o amor).

A primeira coisa que a finitude me traz é o medo. Eu tento entendê-lo para através dele compreender o mundo, vivenciar os lutos e só assim esquecer que ele existe. O último balanço da rede, o extinguir da estrela cadente, o último aplauso do último show do artista, o último trago antes de começar o retorno à sobriedade. O medo é o oposto da magia, mas não como antagônico e sim como complemento. Afinal, o medo é a dose de morte na vida e a dose de vida na morte.

É preciso andar na ponte do rio que cai dos medos para se entregar à magia. A magia que é o encantamento, a esperança, a alegria e o conformismo de que isso tudo acaba, mas mesmo acabando, deixou sua história e fez alguma mudança no mundo.

Veja bem, veja essas linhas, por exemplo. Elas não são nada além de traços, agrupamentos de alguma substância química que, em si, não representam nada. Aliás, é preciso um bocado de informação para entender que esses traços arredondados que se juntam e formam palavras, que contam uma história. Eles - os traços - movimentam alguém, causam embaraço, indignação, interesse. É preciso que um ser tenha consciência, tenha visão, que entenda o português, que enxergue esses traços no espectro de luz em que eles foram desenhados, que tenha capacidade de interpretação, compreensão, todo esse quebra-cabeças para transmitir uma mensagem; uma informação partindo de alguém que está vivo hoje mas que vai morrer para alguém que pode nem estar vivo hoje, mas que também vai morrer.

Não falo a partir de uma ótica pessimista, afinal não estou deprimido com a realidade do sopro de vida que me foi dado. Pelo contrário, enxergar o medo da finitude da vida é perceber o tanto de cor que existe em uma aquarela, é sentir o calor de um abraço no frio escuro, é a pequena luz que pisca no céu opaco. É o tudo traduzido na linguagem da vida, é como enxergar um deus, deixar-se seduzir pelo mistério e nele encontrar respostas abertas para tudo que não sabemos o que é. É o complemento um do outro.

Você já parou pra pensar que um dia você acordou dentro de uma máquina super potente, cheia de energia, que praticamente se gerencia a si própria de forma automática, mas que te colocou para tomar as decisões mais importantes? Como compensação para essa árdua tarefa, ela te deu prazeres e te entregou o amor, para que você visse que o sopro de vida tem sim uma função, mudar o mundo de alguma forma. E essa magia só pode ser o amor, pois ela é em parte triste e preocupante, mas também é em parte inspiradora e alegre.

Por isso que entre o medo e a magia existe toda a vida. A vida é o abismo e olhar para dentro dele demanda coragem para deixar sua marca no mundo. 

Não tenha medo do abismo, o amor é o desafio e também a recompensa para se justificar a nossa parca e ínfima existência nesse pequeno planeta que, assim como tudo nessa existência, também um dia vai se acabar.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Do nada ao nada, uma hora vai dar certo.

 


O título desse texto, embora seja aparentemente um pouco deprimente, não é sobre vazios e faltas. Talvez seja justamente o contrário, o de encontrar sentido e preenchimentos para um minúsculo momento que vai do nada ao nada, do zero que existia antes de nascer ao algo diferente do zero, digamos, um novo zero, depois que a gente se vai.

Essa reflexão me bateu numa entrevista que tive com uma pessoa que estava privada de liberdade há uns dias atrás. Estávamos só eu e ele e tínhamos a mesma idade, o que me chamou logo a atenção. Na sala, uma cadeira de escola para cada um e uma mesa nos separando. Entre nós, papéis onde eu anotava coisas que não eram ele, mas uma informação sobre ele que só fazia sentido no mundo dos homens. “Diga-me seu nome, seu número de identificação, onde corre o seu processo, o que houve nesse dia, você precisa de alguma coisa?”.

E ele me dava respostas que só faziam sentido se entendêssemos as coisas dos homens, sobre o tempo do homem, sobre a vida do homem. Ele, preso, porque fez alguma coisa desaprovada por um homem, porque foi assim que convencionaram os homens, porque seus números e dados – ficções usadas para decidir sobre sua vida – disseram que ali ele deveria estar. Eu, solto porque alguém me permitiu, porque foi assim que convencionaram os homens, porque meus números e dados exclusivamente humanos me deram um rumo diferente daquele que diante de mim se sentava na cadeirinha de escola, embora tivéssemos nascido praticamente na mesma data há uns anos atrás.

Eu, filho da terra e da água que habitam esse lugarzinho há bilhões de anos, pequenas partes agrupadas em uma probabilidade minúscula de acontecer, mas que aconteceu. E justamente naquele dia estava eu diante dele, filho da terra, meu irmão, partículas diferentes de água e terra reunidas para formar outro alguém igual - embora diferente - de mim.

Às vezes me pergunto: por que não falamos sobre o tempo das estrelas? Não nos esqueçamos para não perder a ternura jamais: para a natureza éramos apenas eu e ele, duas cadeiras e uma mesa e todo o universo conspirando para que no minúsculo momento marcado entre o nascimento e a morte, pudéssemos ver isso tudo que se passa aqui fora – e aqui dentro. Entre o que vinha antes do nada e o que virá depois do nada, existe uma coisa acontecendo para todos, que é a chance de experimentar a magia e o inferno que é estar vivo.

Éramos nada há alguns anos atrás. Éramos possibilidades e nos tornamos reais. E daqui a alguns anos, seremos apenas uma versão diferente do nada, porque nossas partículas se tornarão outras coisas na dança maluca dessa pequena esfera metálica que flutua sobre o vácuo.

E justamente por não falarmos tanto assim sobre o tempo das estrelas é que estávamos diante do absurdo dessa existência infeliz em que uma pessoa anda solta e outra, presa. Entre nós não havia diferença substancial: as estrelas nos formaram igualzinho, nós nascemos iguaizinhos e vamos morrer para virar mais ou menos a mesma coisa.

Eu não tenho condições de julgar as ações humanas, especialmente as que o levaram até ali, e, se alguém acha que tem, tampouco me oponho. Creio que no nosso atrasado jeito de viver é apenas mais um dos males a que nos submetemos. Salvamos a consciência sacrificando existências. Sempre foi assim, afinal, anda tudo muito mais errado no mundo dos humanos do que certo: nós estamos simplesmente acabando com nossas chances de sobrevivência no planeta vivendo uma vida injusta, ridícula e absurdamente esmagadora para outras pessoas e espécies que compartilham a terra conosco. Não existe uma criança, uma flor, uma formiga ou ornitorrinco que não esteja ameaçado por uma bomba nuclear, por um rio derramando mercúrio ou por uma chaminé vomitando enxofre.

Então o que eu pude dizer para a pessoa sobre as coisas humanas que o oprimiam? Profissionalmente, falei as coisas mundanas que tinha que falar. Mas disse ainda: “aguente firme e seja paciente que há tempo para ser várias coisas nessa vida, esse não precisa ser o seu fim, pois tudo é um novo início”.

Foi o melhor que consegui falar para aliar o mundo humano ao mundo da natureza, mostrar que o nosso minúsculo tempo de existência aqui na terra é grande o suficiente para abraçar o mundo da natureza – que é muito maior que a cabecinha dos homens.

Entre o nada e o nada pode acontecer tudo. E essa é a beleza que vale pra mim, pra você e pra todos.

Estrelas e corações


Uma estrela explodiu lá longe. 

Na noite escura do céu, quando uma estrela explode é difícil não perceber o clarão lá no alto: as cores e formas se engolindo numa dança cósmica inebriante, como se fizessem rodopios ao som de caixa e tambor e ao toque de mãos divinas. Algo como uma pequena escola de samba suspensa no infinito.

O que foi primeiro um pequeno brilho no céu, bem pequeno, foi crescendo aos poucos. Alguns dias depois da explosão, era como se uma luz tomasse conta da noite e não houvesse mais outras estrelas para se enxergar naquele momento. Era tão claro, como se aquela luz deixasse enxergar até mesmo o ar. 

Eu vi essa estrela explodir. Vi seus pedacinhos chegando até mim, me atravessando, me transformando, combinando e reorganizando em uma nova composição. A princípio eu neguei que aquela luz daquela estrela lá longe pudesse me mudar. Quem é ela? Quem ela acha que é? Eu não pedi nenhuma combinação nova em mim. Mas, sob aquela luz que iluminava o céu da noite, eu dancei. Dancei ao ritmo do samba que ela me deixava ver e ouvir, rodopiando, atravessando em si mesma e em mim também, me enchendo de vida mesmo sendo ela só um feixe de luz vagando apática à minha existência.

Depois que ela entrou em mim, seu brilho já era eu.

E aí meu coração explodiu também. Nas noites que insistiam em escurecer, tudo era luz, tudo era cósmico; a existência era uma sinfonia gostosa de se ouvir. Não sei se quando meu coração explodiu ele deixou de existir, talvez por um breve momento ele seja mais que um coração e menos que uma estrela, mas eu sei que ele também existe hoje em outros corações. E depois disso, ninguém mais vagou com apatia, pois o universo estava rico em beleza, em toque, em cura.

O que explodiu lá longe agora brilha em todo lugar, inclusive aqui perto.

domingo, 30 de outubro de 2022

Eu, quem?

Venho tentando ser eu há muito tempo, mas às vezes desisto. É muito difícil encontrar uma razão que justifique o esforço que é se mostrar uma pessoa só, sempre e sempre. Além disso, cadê o meu eu que gostava de fingir ser professor, que brincava o tempo inteiro e adorava olhar para as estrelas, que dançava sem vergonha? Cadê minha criança?

Não acho que seja privilégio meu sofrer sozinho na busca de escolhas justas para mim e para o mundo, livre de interferências e sólida face às incertezas da vida. Justas em parte, porque eu sou fraco, egoísta e minto. Não sei o que fazer com o amor que depositam em mim e tenho dificuldades em retribuir e ser recíproco. Admitir isso me deixa mais próximo do que eu quero ser, claro, mas não diminui aquele esforço. E esse movimento de Sísifo, eternamente subindo pedra morro acima e vê-la rolar desabalada morro abaixo, todo santo dia, só traz angústia.

Tenho inveja de quem crê em deuses ou astros, signos ou mãos, queria ter essas cartilhas ou muletas para ser menos triste. Abraçar a simplicidade, a idade, a cidade, a felicidade, que para Nietzsche é a ignorância. E eu concordo com ele por um lado: quanto menos você se importa com os problemas, menos eles te incomodam. A questão é que muita gente toma o caminho oposto, tem na ignorância a chave para a maldade (consigo e com os outros) e não para a felicidade. Afinal, não é preciso ser triste para ser consciente, dá para ser triste e ser um filho da puta também.

Nessa luta para descobrir quem sou, preciso me ouvir mais e resgatar minha criança. Quebrar a casca grossa do adulto e deixar sair o que me aprisiona e entrar o que me liberta. Eu vou iniciar esse processo e desistir várias vezes, mas não vou deixar de fazer, prometo. Esse caos aqui dentro, essa confusão, vai sempre existir, eu só preciso respirar e olhar para estrelas e dançar que vai dar certo.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

A luz acesa no teto da sala.


Então você nasce. Assim, simplesmente nasce. Acenderam um interruptor e agora aquela luz no teto da sala que vê e escuta, que toca e é tocado, é você. Brilhando todo dia sem saber o porquê e o como, vendo as coisas ao seu redor existirem e você supostamente tendo que fazer alguma coisa a respeito delas: comê-las, se defender delas, usá-las como arma para conquistar alguma coisa, às vezes todas ao mesmo tempo, às vezes nenhuma delas. Até que um dia um dia você olha para o espelho e diz, “esse sou eu”, esse nariz feio é meu, esse andar esquisito de como quem está pulando é meu, esse desconforto de não saber olhar as pessoas no olho é meu, a incapacidade de dizer não em muitos momentos e a vontade de agradar todo mundo ainda que custe a minha própria saúde são minhas. E é claro que tudo que é seu é também produto dos meios que lhe criaram, afinal você também aprende que da semente do feijão vai nascer outro feijão. Mas não é o mesmo feijão, é outro, só que parecido. Um feijão que é introspectivo e guarda as mágoas sem saber se abrir, igual ao meu pai, e dependente da companhia de alguém ainda que esse alguém seja ruim para mim, igual à minha mãe.

Você também aprende que aquele interruptor pode ser desligado, mas mesmo assim não desliga - ou não tem coragem de desligar. Sua luz ilumina outras pessoas e você sabe que a tristeza não é outra coisa senão o outro lado da alegria, assim como o frio da luz apagada é só o outro lado do cheiro e da cor dela acesa. E também porque, se você pensar bem, há outras formas menos dolorosas de enxergar o escuro e de fazer com que o seu redor tenha mais beleza e mais prazer.

Afinal de contas, de um ponto de vista, você nunca se mexeu, tudo se mexeu o tempo inteiro na sua frente com a sua participação. Igual à luz no teto da sala, você viu a sua vida acontecer na sua frente e embora os outros digam que você está se mexendo, você viu tudo isso pelo seu olhar, pela sua luz. É por isso que não dá para fugir dos problemas, afinal você em Paris, em Roraima ou em Varginha é ainda você. Apague a luz e ainda vai ser você. Too bad.

É esse, então, o único e o grande custo da sua luz: o dever de enxergar as coisas de forma diferente é de ninguém senão seu. As mágoas guardadas, a introspecção do pai ou a carência afetiva da mãe são minhas também, elas são algumas das coisas que a minha luz enxerga, mas o peso de querer viver nessas circunstâncias é meu enquanto aquele interruptor estiver aceso. Essa mesma luz que no espelho diz “esse sou eu”, deixa que eu faça tudo para brilhar ainda mais, me libertar, experimentar, fazer diferente, ousar, criar, passar uma tinta rosa no meio da cara como se fosse carnaval, tocar as flores mais bonitas e coloridas do jardim, sair na rua vestido de um novo eu, dançando e andando com pulinhos ouvindo gloria groove. No fim das contas, a constatação é essa: é ridícula a quantidade de coisas que dá para enxergar por uma luz só no teto da sala. Ufa, ainda bem!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Inauguração


Pode parecer meio viajado, ou viajado até demais, mas você já parou para pensar como é esquisito o nascimento? Não estou falando SÓ do nascimento de um bebê, mas do nascimento das coisas e seres em geral. O da plantinha, o do boi, o do menino chorão. O do adulto chorão, o das cachoeiras, das montanhas, dos tsunamis, dos furacões. O nascimento da pedrinha, do microbiozinho, do vírus, do planeta ali do lado, do lodo que gruda na tigela de água onde seu gatinho, que também nasceu um dia, bebe água. Da água mesmo, do ar, da terra. Tudo nasce, tudo era uma coisa e passou, de uma hora para outra, a ser outra, assim, quase que do nada.

Claro, não é sem motivo que um bebê nasce ou que você se descobre uma outra pessoa. Tem muitos processos acontecendo o tempo inteiro para que coisas nasçam a partir de outras coisas, que vão se juntando, se misturando para depois virar outras coisas e assim sucessivamente, para todo o SEMPRE. E é legal imaginar que essa é a única forma que a palavra SEMPRE realmente se aplica. Não é do jeito que a nossa metafísica limitada acha que as coisas duram para “sempre”, porque nada dura para “sempre”, mas sim, que as coisas SEMPRE mudarão. Vai lá no inglês e me diga com que parece a palavra Always: “de todo jeito” ou “todos os caminhos”. Eu nem sei se vem daí essa palavra, pois eu só sei falar inglês o suficiente para não morrer de fome e sede por uns dois dias, mas o que eu quero dizer é que SEMPRE quer dizer “vai mudar”, de todo jeito.

E nesse processo eterno de nascer uma coisa que era outra, a gente pega muita, mas muita carona. Afinal, queira você ou não, a diferença entre uma poça de lama e uma pessoa é meramente de organização das coisas minúsculas que juntas vão dizer se você é uma poça de lama ou uma pessoa. Os astrônomos poetizaram isso, dizem que nós somos “poeira de estrelas”. David Bowie, holístico, já meteu Stardust no meio de suas canções e assim todo mundo agora sabe que, de alguma forma, é também parte dela, dessa matéria que vaga no universo e que acontece de formar você e eu, justo aqui e justo agora.

Então é assim, todo mundo se inaugura, partindo de algo que era antes e que agora vai ser outra coisa. Entre nascer um microbiozinho e um furacão, nasce um homem que larga tudo que lhe era caro por conta de um trabalho novo, inaugura-se uma pessoa apaixonada, nascem desapontamentos, nasce um ansioso, nasce tristeza e nasce alegria nas incríveis coisas novas que esse homem nunca esperaria viver. Inauguramos versões de nós mesmos para poder viver o nosso tão curto “sempre” da melhor forma possível. E convenhamos, é muito curto esse tempinho aqui no meio de tudo que não é nosso nem nunca vai ser para se negar a aceitar que essa inconstância é a única constância que existe, que dá tempo ser muita coisa antes de ir de vez e de fechar os olhos para nem ver mais o que seguiu nascendo. Aprendizado, é esse o outro nome dessa inauguração tão festiva e dolorosa.

Por isso que é tão bom conhecer lugares novos quando dá. Assim como é ótimo desistir do filme no meio do cinema, sair das roubadas, pular as fogueiras. Pegar uma estrada desconhecida, pular uma cerca. Querendo, dá para inaugurar um universo novo todo dia, dá para fazer nascer o inédito. Porque no fundo - e daqui a pouco - todo mundo é e vai ser SEMPRE poeira.