quarta-feira, 14 de julho de 2010

Exceção

Você é a exceção de toda a maldade
De toda a tristeza, de todos os males
De todos os vícios, é o que eu mais quero
O ópio que eu preciso, que eu mais espero.

Você me faz crer em mim
E é só porque eu creio em você
Mesmo quando não encontro meu caminho
Você me mostra, você me vê.

Eu vejo meu medo, mas você vê minha força
Se alguém nos juntou é porque não sabia

Que você é o vento, é o tempo
E temporal
O claro no escuro, o calor no frio
É meu carnaval
É a história que eu mais quero ouvir
E a tristeza que não quero ter
É a minha vaidade, é o meu ser

Você é a exceção das poesias dolorosas
Da morte anunciada no nascimento
Exceção a todo o tempo,
No bater acelerado do meu coração

Quando você está por perto
Tudo está claro e certo
No nosso jogo não tem perdedor
Não tem nunca derrotas
Nem tampouco empates

Quando você dorme eu vejo seu sorriso
E eu sei que você vê o meu
Tudo isso porque eu sei

Que você é o vento, é o tempo
E temporal
O claro no escuro, o calor no frio
É meu carnaval
É a história que eu mais quero ouvir
E a tristeza que não quero ter
É a minha vaidade, é o meu ser

Eu quero que essa calma nunca se vá
Eu digo isso porque eu já vivi sem você
Por mais que eu não lembre
Pois parece que nada existia antes

Não me acorde
Deixe-me nesse sonho de alegria

I know this joy is only mine
And the pain will never come
As long as you're here
As long as I'm dreaming

Don't never wake me
Cause I'll die if I know this aint true
I'd rather never know
If it's really you.

Pois você é
É a história que eu mais quero ouvir
E a tristeza que não quero ter
É a minha vaidade, é o meu ser

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Quase não lembro o dia em que você me parou na estação.

O chão do quarto ainda está cheio de seus passos
E eu consigo vê-los em câmera lenta.
Ainda consigo sentir os seus abraços
Os seus dedos, o seu pescoço, sua boca.

E eu que estou sempre à sua espera
Ao mesmo tempo não descanso
Pois estou à sua procura
Ao avesso, em reverso, lembrando.

Imaginando...

Como você chegou aqui assim?
O que você queria de mim?
Quase não lembro o dia em que você me parou na estação.
Estava tão claro, calmo, e de repente se fez furacão.

Um frio, um calafrio
Perdi a aposta. Dias de derrotas.
Minhas viagens e passagens e bilhetes
Não me dão entrada em nenhum lugar
Exceto a solidão.

Os seus olhos e bocas e línguas
Suas falas e beijos e gestos ordenados
Seus apegos e desejos e dedos cruzados
Seus movimentos na lua crescente
De um céu azul desbotado

Como você chegou aqui assim?
O que você queria de mim?
Quase não lembro o dia em que você me parou na estação.
Estava tão claro, calmo, e de repente se fez furacão.

E a poesia se congela no mesmo instante
Em que você me deixa sublime e me deixa.
Você que me faz presença e faz falta.
Vai buscar outro cigarro, outro otário.
Outro que lhe deixe dinheiro na mesa.

Eu não devia ter você hoje.
Você precisava não voltar
Mas eu nunca cumpri com meus deveres.
E você nunca foi de precisar.


Isaac N

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Amor e(m) Guerra

Amo você não é de hoje. Não é de ontem, nem de anteontem.

Tenho a sensação de que esse amor já vinha sendo criado desde o começo dos tempos, e vinha flutuando no espaço, no mar, se arrastando no vento. Vinha sendo saboreado pelos outros quando o cheiro da chuva invadia a rua deserta e a terra seca do sertão. Ele já foi provado pelo degustador de vinhos mais exigente, que no seu momento de êxtase invocava o divino para proclamar a criação de Baco. Já foi sentido pelo mais fiel dos crentes e pelo mais infiel dos ateus.

Esse amor veio de trem junto com o poeta mais romântico. Ele foi com certeza a inspiração de Baudelaire. Ele estava nos dedos de Beethoven e na voz de John Lennon. Ele estava lá, não duvide.

Ele já provocou guerras, ele já separou nações. Ele costumava fazer loucuras nas mãos de sãos e de deixar mais insanos ainda os doentes mentais, tudo para provar que seus caprichos e vontades eram ilimitados. Ah, seus devaneios. Eu sei que ele gosta de sangrar, de fazer sentir volúpia , de derramar-se e transformar-se em carne trêmula. Eu sei que ele cheira a suor, e que tem gosto de sal, mas que pode ser mais amargo que terra, que pólvora. Sei que sua lâmina afiada perfura qualquer corpo, esteja vivo ou esteja morto.

Esse mesmo amor aguerrido, lutador, pioneiro. Ele mesmo. Ele que é ente, que está a mercê de nossa própria ignorância, ele que me fez te amar. Ele que é arriscado. Que está riscado no papel parede da minha casa.

Ele é você, que me deixa te amar, em meio a esse encontro inusitado de almas, bem no estilo rosa e cravo. Garanto que vou mirar e atirar com todo o prazer. Seja paz ou na guerra, não esqueça do perigo que ele traz, e no estrago que ele faz.


Isaac N

sábado, 19 de junho de 2010

Feito In Memorian (FIM)

Tu que és produto do imaginário,
Não és físico, nem metafísico,
É, pois, paradoxal em sua essência.
A linguagem lhe dá forma, cadência,
quando nos faz sombra ainda no claro.

As suas portas se fecharam.
Os seus armários estão vazios.
Por que viestes tão sóbrio?
Por que não me deixas teu ópio?
Por que tuas janelas se quebraram?

Eu que devo seguir teu prelúdio.
Eu que devo amar os teus desfechos.
Tu que és irritantemente monofônico
Eu que estou irritantemente atônito
Aceito tudo que me trouxer proveitos.

Este é o início do seu legado
Estagnado, opaco e resignado,
Frio, dark, amargo.
Branco em preto.

Não tenhas dúvida que te recordarei.
Certamente te idolatrarei.
Hoje só quero olvidar-te.
Hoje não quero nunca amar-te.

Irei desatar os teus laços
Enquanto encobrirás meus erros.
Vestirei-me de branco, sem medo
E serei teu filho.

Tua prole, a mais insegura.
Este futuro, o mais valioso.

Estou diante do teu machado.
E já aceitei a tua sentença.

Finalize-me.



#Ao meu amigo PC, que os fins não sejam amargos.

terça-feira, 18 de março de 2008

Eu só quero vida real. Só preciso de um fio condutor, de um meio mais ou menos hermético, de um peso e uma medida e de ar pra engolir, mastigar e cuspir.

Não estou a procura de emoções. Meus ouvidos não achei no lixo, ainda que a alma por lá caminhe, procurando o que comer. Ela não foi comprada, nem roubada; já não posso dizer o mesmo do resto, escárnio do universo, espelho convexo.

As boas velhas e as velhas boas não me saciam mais. Não têm fundação, capacidade nem substância que as integre. São bolhas esparsas e espessas, flutuando sobre o coletivo, e eu prefiro o singular. Desculpem-me, mas não tenho interesse em plurais de indivíduos, e sim em indivíduos plurais.

Quem quiser me ensinar a cantar, por favor entenda, que se eu quiser chorar, e se eu quiser correr, e se eu quiser morrer, só preciso de uma nota: de música ou de falecimento.

sábado, 15 de setembro de 2007

O FIM

Então tá, é o fim. É o fim, e o mundo se pôs no lugar do sol, que insiste em colorir o que pra mim só parece ser cinza e branco. Insiste em deixar sua luz n'aquele quarto que um dia dividimos, naquela cadeira onde eu lia seus livros de Dostoievski e seus romances de Jorge Amado, e suas revistas de gente fútil, mas que demonstravam ter mais personalidade que um dia sonharei em ter na vida.

E agora? O que eu faço com aquela viagem do ano que vem pra Itália? Quem vai brigar comigo na gôndola enquanto eu esguicho água suja na sua cara? Quem vai me dar a caixa de chocolates recheada de flores feitas com os bombons que você comeu?

Com quem eu vou discutir, morrer de brigar, achando que Bentinho era um corno e Capitu uma p., enquanto você acha que uma coisa não tem nada que ver com a outra?Só me resta então, esmurrar o travesseiro, encharcá-lo de tristeza, mergulhar no abismo do lençol, enfrentar as feras que aparecem na tv, sorrindo triunfantes nos seus carros de luxo e suas vidas de mentira. Aí eu vou acordar amanhã, e o verde já conseguirei captar com meus olhos, embora seja o mesmo verde dos teus olhos. E depois de amanhã eu irei perceber o azul, embora seja o mesmo azul do seu vestido preferido. E semana que vem, já até terei um sorriso sincero, um ou dois números discados no telefone, e as pessoas da tv já não parecerão assim tão idiotas, até porque eles foram meus melhores amigos essa semana.Pois é, vida, você ganhou e eu perdi. Doravante só juntarei os cacos se você me disser que eu serei idiota suficiente pra viver isso tudo de novo.

Ah, como é bom o fim. E quem disse que não é?

Isaac N

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

LINHA FÉRIAS

O som da buzina é irritante, enjoado e agoniante. É praticamente uma dor de cabeça que não se acaba, que teima em aquecer os miolos na medida em que os trilhos vão passando, em que o horizonte vai sendo invadido, tal qual Napoleão quando invadira a gelada Rússia, pela sonora – ruidosa – máquina ferril. Lá dentro estão os maiores responsáveis pelo funcionamento de tudo que a gente mais precisa, mas que muitas vezes nem imaginamos como se opera. Um dia, por exemplo, uma discussão sobre os computadores e suas operações desconcertantes provocou uma certa dissonância no ambiente pré-acadêmico urbanizado e socialístico – que nada mais é do que a mesa de bar – quando chegaram à conclusão que nem mesmo o mais renomado cientista conseguiria montar um espécime, nem mesmo um mísero protótipo, mesmo com todos os seus conhecimentos científicos especializados.

O responsável pelo barulho monofônico, aquela máquina robusta, cuja moral e imponência desafia toda e qualquer forma viva e não viva, movente ou não, e cuja potência contradiz com sua enorme sujeira e descuido, é o meio por onde caminham e transitam os mais nobres operários do conforto alheio, tão sujos e descuidados quanto o próprio veículo que os transporta. São os construtores das casas, dos prédios e escolas que, como diria o pseudopoeta-anarquista, depois de prontos, não podem sequer passar sobre suas calçadas, são os montadores de carros que não têm carros, são os comerciantes descapitalizados, são as alquimistas do sexo, os alquimistas das substâncias ilícitas que todos tanto buscam, os marginais (sim, os marginais, afinal se não fosse por suas reles, infames e desvairadas existências, de que serviriam os polícias?), os pedintes que limpam e riscam carros. Se fosse transformar esse enredo em uma linguagem figurativa, sem querer usar eufemismos bobos e indiretos, compararia a situação ao sistema digestivo da sociedade. Respondem pela alimentação, pela transformação, mas no fim, e ainda de acordo com Rita Lee, tudo vira bosta.

Aí vem o ruído e quebra a concentração. Droga, onde é que eu parei? Será que foi na parte que via o menino do lado de fora a comer terra ou foi no senhor do lado de dentro que queria nem que fosse terra pra comer?

Mas enfim, o destino era o campo verde, o lugar bonito, o desconhecido tão conhecido. Era o lugar fincado no meio de um canavial, ainda que, na minha cabeça, eu só visse o mato alto engolindo a cidade. Nesses tempos de bio-sei-lá-o-quê, do eco-não-lhe-interessa e do meio-já-é-tarde-demais-ambiente, aquilo lá parecia mais um sítio intocado. A buzina do trem das quatro chegando agita a cidade inteira: vai lá Joana, chegaram os pescadores, vê se tem algum bom pra janta, e você também Maria, vai ajudar teu pai a carregar o isopor do picolé que ele tá cansado! É o acontecimento mais festejado e mais sonoro do dia. É uma alegria tão visceral, tão crua, que não consegui encontrar comparações palpáveis. Mas certo estive que a buzina, mesmo de longe, já provocava as emoções tão cruas quanto aqueles pães assando na padaria, bem perto da linha do trem e que de longe eu já sentia o cheiro.
Isaac N