sábado, 24 de março de 2012

Valsa na Chuva

Naquela tarde, a água escorria por sob meus cabelos enquanto uma valsa ressoava bamboleante em meu ouvido. Uma valsa em violino, piano, acordeon e violoncelo, ritmo forte, sensação de rodopio, acordes delicadamente trabalhados, burilados pelas mãos dessas pessoas geniais que nascem com os ouvidos canonizados, certamente sobrenaturais. E nesse momento, nesse exato momento em que o acordeon tocava a todo pique, a água da chuva escorria por sob os cabelos, dando um toque malandro para aquele rodopio conduzido pela valsa; pela dança conduzida no arrepio.


Sim porque fez muito frio. A chuva parecia querer me abraçar, me tomar pela mão e dançar comigo aquela ciranda erudita, zombando de tudo e de todos aqueles que a tratavam como um infortúnio, numa espécie de vingança por terem esquecido que a chuva é mesmo para ser acompanhada por uma valsa. Ora, se fosse eu o deus da chuva, também castigaria esse povo que perversamente transformou minha maior dádiva em temor. Bradaria com todos os trovões porque o homem perdeu o prazer que só a chuva proporciona, - Eu, que me esforço tanto, eu que sou solúvel em física e em metáfora, faço sangrar as têmporas para construí-la e entregá-la sem custo algum ao solo, esse pobre maltratado pelos pés sujos dos mesmos humanos que agora me maldizem. Raios.


E enquanto todos voam eu passo devagar, esperando quem sabe alguma lei natural tão substancial quanto a lei da chuva, que essa lei venha me tomar para um outro passeio, mais uma contemplação sensorial. No fim e no início, chuva é conexão: entre céu e chão, entre a semente e o pão, entre o compositor daquela valsa que ainda me fazia rodar e eu. Afinal de contas, a menor distância entre dois pontos é sempre a chuva.


Isaac N

24 de março de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Abundância no desbunde.

É complicado para alguém da geração de abundância do desbunde, não ser do abundantemente desregrado. Não participar do gesto muitas vezes – e quase sempre – autodestrutivo de cultuação da identidade criada na total falta de identidade; não compartilhar do movimento que transforma a inutilidade em vulto e a criatividade em sombra.


Sejamos objetivos, o homem é o próprio destruidor de si mesmo. Ele busca amarras para se definir, ele compra regras no café da manhã, vícios no almoço e marcas no jantar. Sempre correndo atrás do próprio rabo, engatando em modas risíveis para compartilhar o mínimo de si com o máximo de pessoas. O individualismo sobre a mesa e o altruísmo sob o vaso, ralo abaixo.


O desbunde, o rompimento de amarras, a criação do novo de novo; e o mundo engolindo-se no próprio engodo.


É complicado.

domingo, 29 de maio de 2011

Olhos de Fogo / Desilusão

Olhos de fogo

Os olhos de Michel e Adriana cruzaram-se finalmente no Café Budapeste naquele fim de tarde chuvoso típico nos meses de maio, ressabiado pelos gritos da avenida movimentada, barulhenta e parcialmente alagada pela intermitente precipitação. Do lado de dentro, via-se através do vidro já embaçado a dificuldade dos transeuntes ao tentar cruzar a rua, alguns haviam desistido de impedir a enxurrada deixada pelos carros que passavam em maior velocidade e outros se esforçavam para continuar o passo naquela calçada encharcada.

A fumaça saía da cozinha frenética, os passos apressados dos garçons com canetas na boca, na orelha e papéis em todos os bolsos, o constante vai-e-vem de clientes afobados pela loucura do mundo exterior, tudo isso contrastava com a pequena cabina silenciosa que eles escolheram para dividir um capuccino. Lá dentro, no primeiro andar, Michel fulminava os olhos de Adriana como se pusessem fogo em todo o ambiente, como se o calor do café fosse brisa gelada diante daquela temperatura absurda que se transmitia no olhar. Olhos que queimavam o choro sincero de saudade, que clareavam a embriaguez do dia anterior, que viciava o ar e que por ele era viciado. Para ela, ardia naquele olhar o desejo velado, mas febril, de corrupção.

Eles, que costumavam ser inseparáveis no passado, passaram anos sem se ver: Michel, rabugento como ninguém, havia decidido ser roteirista de peças de teatro, talvez para poder transfigurar para a ficção um pouco dos seus dramas e comoções tão imensas e tão urgentes quanto fugazes. Pouco necessário dizer que estava no auge da crise de meia-idade, onde suas manias pareciam cada vez menos necessárias e lógicas. Ela, muito nova ainda – e bem mais nova que ele – tinha acabado de chegar de uma temporada na Arábia Saudita, onde havia sido contratada como engenheira de uma multinacional. Notava-se que ainda estava pouco acostumada com o ar libertino que inspirava aquela cidade, e só de estar diante de sua antiga paixão de adolescência aceitando o risco - pouco provável, a seu ver - de trair seu marido, já vencera uma grande disputa interna que ela havia travado consigo desde o momento em que chegara de viagem até o dia em que decidiu convidá-lo para esse café.

Ele lustrava suas conquistas com ar de autoridade, exibia o seu rosto marcado pelo tempo, com a convicção de um sábio, até mesmo chegando a intimidá-la em certos momentos dada a incrível segurança que transparecia de suas palavras e gestos. Ela discriminava seus álbuns e vestidos comprados no exterior, e afirmava que as benesses da burguesia eram “supérfluas”, coisas efêmeras diante da sua recente primavera cultural (como ela gostava de denominar o recente hábito de ampliar seus horizontes artísticos através da fotografia). Mais que isso, ela tentava de toda forma desviar-se daquele olhar fulgurante, daquelas duas fontes negras de calor que em si provocavam uma atração quase irresistível.

Na verdade, Adriana não conseguia suportar sua fragilidade diante daquele homem. Ela se punia por não conseguir parar de tremer ao menor toque da mão do Michel, esbarrões esses exclusivamente acidentais. E não aguentava a ideia de que não seria capaz de dizer um não para ele, por mais esdrúxulo e impossível que fosse o pedido. Suava em bicas a cada penetração daquele olhar de raio laser e tentava desviar seu desejo transparente em notas sobre política e teatro, ao passo em que mostrava para ele suas fotos no deserto, torcendo sempre por outro toque inesperado.

Michel parecia sentir falta da companhia de Adriana, mas suas convicções de relacionamentos interpessoais adquiridos dos últimos sete namoros consecutivos fracassados o cegava e o impedia de perceber que a vontade dela era resgatar a jovialidade do passado, quando aqueles olhos podiam derretê-la em uma fração de segundo. Além do mais, estava em uma fase de total abnegação em interesses humanos; aparentemente havia algo que o tirava da realidade, de tão envolvido que estava em suas peças conhecidas por serem sorumbáticas e extremamente cruéis.

Desilusão

Aquele momento de intensidade foi interrompido pelo celular dela. Era sua filha que estava esperando na escola, a poucos metros dali. Pediram imediatamente a conta, ela pagou. Ela deu-lhe um cartão com seu número pessoal e combinaram de qualquer dia marcarem outro encontro. Despediram-se.

Adriana abriu seu guarda-chuva, saiu do Café Budapeste e foi com cuidado pisando no chão escorregadio até a porta do seu carro.

Deu tempo de ver pelo vidro quando ele rasgou seu cartão e acendeu um cigarro, cruzando a rua e desaparecendo na esquina à frente.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Dicas de um velho moribundo.



Algo que pode ser escrito daqui a duas décadas, ou há duas horas atrás.

Dica número 1:

Euforia é uma coisa asquerosa para quem a vê de fora.
Nada mais chato do que uma vida de poucos fracassos.

Dica número 2:

Um brinde à grande ilusão do amor.
Outro brinde aos que já se embriagam de ilusão.
Ofereço aos tolos que procuram o eu no outro.
E aos que não suportam a solidão.

Dica número 3:

Esnobe com dinheiro mas nao esnobe com amor.
Nós, não amantes, não precisamos saber do seu amor.
Isso só nos torna mais resignados.

Dica número 4:

Tire esse sorriso do meu caminho
Porque sim.
Tire o seu caminho do meu sorriso
Por que não?

Conclusão:

Há sonho demais, esperança demais, vontade demais
E há também a coragem que nos falta.
A hipocrisia que nos cerca.
E a mentira que nos mata.

Isaac N

Estou escrevendo. Passe amanhã

Beleza na tragédia.

Podíamos propor um trato com a natureza. De tempos em tempos ela colocaria uma provação aos homens para que eles se lembrassem da sua infinita e incomunal pequenez. Seria belo senão trágico; se já não fosse verdade.


Continuo...

Sob um ponto de vista conceitual esquema-intelecto, o homem é o menor ser humano que existe.

E, considerando que o mundo está lotado de pessoas pequenas, concluo que quero morrer cedo; é tempo demais para se perder com pessoas de menos.

Está é a minha bravata.
O meu arroubo de ira.
O meu verso sabor de fel.
A verdade que também é uma mentira.

Isaac N

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Doce de coração amargo.

 Uma dose de descontente
Alguns punhados de dor
Desejo mexido e estralado
Faço meu próprio desamor
(Com cheiro de passado)
 
Bons sonhos são bem vindos
Em noites de pouco e raro sono
Requentar memórias e sinestesias
Em dias de ilusão e desengano
(Com sabor de alegria)
 
Extraindo poesia da amargura
Agrura, azia, avarias
Tornando-as em amarula
Azuis, Amarelas, aquarelas
(De texturas variadas)
 
É como a receita começa e acaba
É como se adoece, sem afago
O açúcar pode não fazer bem
Mas faz doce de coração amargo
(Ao som de Belle e Sebastian)
 
Isaac N

domingo, 14 de novembro de 2010

Aridez Parte 1

A aridez chegara com força no lugar. O verde-azul, ora piscina, ora oceano, que tinha esse olho d'água, na beira da serrinha, estava cor de mel, de barro. Em certos momentos, diziam ser certeza encontrá-lo acinzentado e com um cheiro insuportável.

O chão estava seco, o céu mudo, o vento não corria. Os únicos assobios que se ouvem de lá são dos bichos que alguém esquecera de levar quando abandonou por completo aquela sequidão. E esses assobios são silenciosos, possivelmente frutos de um delírio de quem lá ainda insiste em por os pés, sem tomar as devidas precauções.

Era um vale pequeno, devia ter uns três quilômetros de extensão de terra seca e solta. Ficava entre duas montanhas – rochas com matiz de osso – com formas de coxas magras de ave, cada uma delas com um tronco seco no topo, com tantas peles de cobra quanto a imaginação pudesse alcançar. O tronco do rochedo da esquerda era envergado como uma coluna. Era marrom, tinha ovos de cobra em um furo grande na sua base. O tronco do rochedo da direita era reto e com uma forquilha na ponta, sobre o qual havia sido posto um outro pedaço de madeira preta na transversal, formando uma espécie de cruz torta que servia na verdade de farol para o intrépido – e perdido – viajante que porventura um dia decidisse bandeirar por aquelas direções.

A rocha não tinha só cor de osso, mas também tinha esse gosto de coisa cinza. Talvez essa sinestesia seja fruto da completa falta de criatividade da natureza, acabando por confundir os desavisados sem esperança. Era evidente o sinal de “dê a volta” naquele lugar; dali não sairia mais que dores.

O único que ainda vivia no vale, em uma casa de taipa coberta com palha de coco à beira do olho d'água – com uma espingarda na porta – era o solitário seu Egu, nome que ele mesmo havia inventado, pois não lembrava de ter tido outro dado por alguém. Egu era homem da terra, sem pai, mãe ou deus que o criasse, sempre viveu ali comendo cacto sem tirar os espinhos, sugando o resto de vida que mal dava para manter a sua própria. Alguém mais desavisado certamente o confundiria com uma estátua de mau gosto e maldade; pernas finas, olhar perdido e centrado, boca murcha, trinta e duas cavidades de dente na boca, um chapeu panamá que havia chegado voando, sujo, com uma mancha de sangue amarelada e um furo enorme na lateral.

Carrancudo, orgulhoso, negro como a manhã e branco como a noite, Egu não sabia distinguir o que era verdade e o que era mentira. Às vezes ele tinha nas mãos o seu chapeu e ficava estático olhando para o furo. Em seus olhos via-se a imaginação de um pretérito mais que imperfeito. Restara sozinho por culpa própria e viver da imagem misturada do passado era um consolo. Esse passado latente e recente o atormentava e o alimentava, enquanto a poeira manchava sua face com sulcos de lágrimas amarelas.

A solidão o conformava, para ser honesto. Ou melhor, ele se conformava com a solidão honesta. Se o perguntassem, contestaria: “honestamente, um solitário não se conforma com a solidão”. Enredos e palavras trocados à parte, o fato é que o sol era quente e castigava.

Continua...