domingo, 5 de abril de 2026

Passagem

Dor não fica, não se remete

É transformação de uma coisa

Em outra, no devir da vida

No balanço da onda que

Tudo quebra à sua frente

 

Gotas contadas de instante

Definem, marcam, prendem

Mas são só gotas

Suspensas nesse formato

logo voltam a ser mar.

 

Que natureza estranha

Onde o futuro já é passado

O tempo não pode ser

segurado

E ainda assim é o único bilhete

Passagem só de ida pra vida.

 

Não adianta buscar sentido

Pois tudo é por acaso

E Tudo estava escrito

É uma fórmula simples

Vai passar, mesmo que não

Ainda não

 

Alegria não fica, mas se remete

Nosso código é mais simples

Que o da vida

É viver em amor

E sentir o mais próximo que se tem

De ser eterno.

segunda-feira, 23 de março de 2026

A massagista


Como é que vai ser, é só ir falando? Vocês vão me fazendo perguntas ou eu posso só começar? Bom, vou começar tá, o moço ali sorridente do cafezinho na mão já me disse que eu posso ir falando e falando e vocês pediram pra eu contar sobre o meu trabalho. Como eu praticamente moro nesse lugar, pra mim é fácil, tomara que eu não fale muita besteira.

Então, eu me chamo Rosália, sou natural de Salvador Bahia graças a Deus e a Iemanjá, sou massagista, mas antes de tudo perfeccionista. Nossa, como eu quero que ninguém nunca duvide de minha capacidade, sabe? Eu acho que sou assim desde criança, minha mãe era super exigente comigo na escola, meu pai não permitia que eu andasse com um fio de cabelo fora do lugar. Jesus amado, é difícil demais tentar agradar eles, os outros, o mundo. Eu luto e luto todo dia pra chegar aqui impecável: cabelo todo amarrado no coque, roupa sempre limpa e cheirosa, minha maquiagem eu até faço uma base clara bem forte sabe, depois uns traços asiáticos, um olho de gato e um blush forte vermelho, por que você sabe né? Nessa casa de massagem aqui em Belo Horizonte, ela nem é das mais chiques como vocês podem ver, ainda que, dentro da simplicidade, seja um pequeno palacete onde às vezes a gente é tratada como rainha, às vezes como escrava. Mas como eu ia dizendo, os clientes que batem aí nessa porta - eles menos chiques que nós isso eu afirmo - eles já vêm logo querendo que a gente seja asiática de pai e mãe. Ai Jesus, aí o senhor repare, eu, baiana de todos os santos e orixás, como que eu vou ser asiática gente? Tanto orgulho da minha pele morena e de tudo que é de mim e de minha terra, aí eu tenho que parecer asiática aqui para a patroa não reclamar. Olha, mas tudo bem, a última coisa que eu quero é receber reclamação, pois, como disse: perfeccionista né? Nossa, que sina essa de ser assim. Cá pra nós, na verdade, verdade mesmo, eu não me acho tão boa assim e rezo noite e dia para todos os santos, para tudo que é orixá, rogando que ninguém descubra um centímetro das minhas fraquezas. E olha, é difícil tá? Eu tenho uma dor no ombro, não é bem no ombro, você sabe, é no músculo do trapézio, que é inclusive onde eu mais gosto de trabalhar com meus clientes, imaginando que eles e elas todos têm uma dor parecida. E assim, essa dor, eu sei que ela não é dor de luxação nem de machucado, porque eu já fui no médico olhar e não tinha nada de errado. Eu acredito que é tipo uma dor dessas que uma psicóloga que eu atendi um dia me falou depois da massagem que eu fiz nela, dor psicossomática ela me disse, usou essa palavra que eu nem conhecia aí. Avalie, eu tenho esse problema em querer agradar demais e, segundo ela me falou, essa dor que eu sinto pode ser psicossomática, querendo dizer que eu me cobro muito e que isso tá me fazendo doer no meu músculo do trapézio esquerdo, muito fino e concentrado, eu consigo até tocar na dor aqui ó, olha eu tocando na dor que minha mãe me deixou de presente. Ah eu sou mesmo meio brincalhona, todo baiano é um pouco né? Minha mãezinha que Deus a tenha, ela me perdoa, só não sei se eu perdoo ela.

Mas enfim, foi lá em Salvador mesmo que eu aprendi a fazer massagem, trabalhei com isso uns cinco anos antes de vir pra cá. A dona desse lugar que vocês veem hoje me conheceu porque ela foi passar um verão em Morro de São Paulo e eu estava lá na praia, nas minhas férias, veja bem, fazendo massagem para tirar uns trocados a mais. Hoje eu me arrependo né? Eu devia estar só na praia curtindo, mas a gente que trabalha com massagem vive apertada e o turista que vai pra Morro já gosta de relaxar mais... não consegui dizer não. Ah, se eu pudesse voltar atrás. Resumindo: a gente ficou loguinho muito amiga, porque ela tinha uma escoliosezinha que lhe dava umas dores na coluna na hora de dormir e eu acho que eu consegui com umas quatro sessões achar uns confortos pra ela. De verdade, eu acho que metade do meu serviço foi o mar e o calor da Bahia que fizeram, mas tudo bem. Daí ela voltou para Belo Horizonte e uns dias depois eu já estava com essa proposta de emprego aqui.

Eu hoje aqui ganho bem mais que lá sabe? Aqui a dona é doida por dinheiro, parece que todo mundo aqui é meio assim na verdade, e aí eu tenho que vender minha alma pra esse trabalho. Tem dias que são só noites não dormidas e essa insônia quando me alcança pelos fins de semana, deixa minha dor no trapézio ainda maior e eu não tenho tempo nem de pensar nela quem dirá tratar, de deixar sarar. Eu preciso ser perfeita, preciso deixar sempre minha cara com essa base clara, com esse olho de peixe, essa roupa que vocês tão vendo que é meio apertada e até fingir que sou mesmo asiática assim lá de uma tataravó, tudo para agradar os outros. Agradar eles, que chegam aqui em tempo de morrer de estressados e sonhando com uma massagem que os faça esquecer um pouquinho dessas dores. Ah como eu queria um dia largar isso tudo e voltar pra terminar de curtir o meu verão de Morro sem nem pensar em massagem!

Bom, já tou vendo me alongar muito e eu tenho serviço me esperando, vou deixar de enrolação, eu sei que vocês têm mais o que fazer. Então, quando cheguei aqui, no primeiro dia eu vi, quer dizer, vi não, senti com meus dedos e mãos, que meus clientes eram mais, digamos, travados. Tipo o trânsito dessa cidade que vive “garrado”, mineira eu, repare! Mas sim, posso dizer que já vi de tudo aqui. Eu gosto quando chega alguém assim bem perdido, bem desavisado, bate na nossa porta e vai sendo carregado por esse cheirinho de incenso de patchuli bem gostoso, por esse ambiente calminho que é o oposto da loucura ali de fora como vocês podem ver. Tipo um rapaz que veio aqui semana passada, entrou por aqui se achando o bam bam bam, ele meio se achando um atleta, um ar de superioridade sabe, mas com um semblante péssimo de preocupação e uma cara de quem anda escondendo angústias até no dedão do pé, que, inclusive, os dois dedões estavam com unhas encravadas. Vai vendo quem é travado na vida. E aí corta para 15 minutos depois dessa cara fechada abrindo a nossa porta aqui, esse rapaz na minha frente se acabando de chorar no meio da massagem e eu perguntando com um ar meio maquiavélico, meio irônico: “a massagem está boa, senhor?” “ah sim, muito obrigada”. Nessas horas eu juro que minha dor no ombro até some, eu me divirto!

Como eu vi que vocês gostaram dessa história eu vou contar ela melhor. Isso foi semana passada, como eu falei. Foi assim, eu pedi para ele se deitar de bruços, ele tava meio envergonhado, dava pra ver. Aí eu passei um óleo aromático primeiro em todo o dorso. Depois fui com minhas mãos tateando como um cachorro farejador e buscando todos os nozinhos e, nossa senhora, eram muitos viu? Era praticamente um a cada centímetro das costas dele. O povo lá da minha Bahia não tinha isso não, viu, ô cabrunco pra ter tanta dor acumulada, como é que chega naquele estágio? Foi logo aí, dois minutos de massagem que eu vi aquele homem começar a chorar. Gente, eu juro que não me espanto mais. A vida é mesmo muito dura pra quem quer ser dura com ela. Eu sei, né? Eu tenho minhas dores também, tem aquela do ombro e outras que eu não falei ainda, mas posso falar um dia se quiserem. Meu problema é que, além de perfeccionista, eu sou massagista e não posso sair por aí falando que tenho tantas dores assim, minha patroa vai é me demitir e eu vou ficar sem emprego em canto nenhum.

Aí eu segui né, amassando aqueles nós com as minhas mãos, fazendo com que as pontas de meus dedos encontrassem as pontas soltas da vida dele. Eu tive a sensação que as lágrimas que escorriam de sua face eram lubrificante da alma, eram uma forma de ajudar com que meu corpo encontrasse de verdade o dele, que eu pudesse acessar os recônditos guardados por baixo de tanta dureza, de uma casca tão grossa. E assim era que ia, tocava ali, sentia o choro e se abria um vão onde eu podia agora enfiar a mão inteira, dedos até o punho, arrancando de lá um machucado antigo. Era como fazer vários partos ao redor da espinha, cada hora saindo lá de dentro uma ferida nova e com cara de gente. Eu senti o grito abafado do adolescente que ele não perdoou, da criança que sentia falta do amor da mãe, do jovem que seguia ali magoado pelas inconsequências não elaboradas da vida. Muita mágoa, muita mágoa. Quando eu subi com os joelhos por sobre os músculos das escápulas dele, eu senti que meu peso ecoava nas dores da vida dele ali juntas e não acessadas, escondidas, guardadas num abscesso de faltas e remorsos prestes a explodir. Do lado direito eram todas as dores só dele, mas do lado esquerdo eram todas as dores do mundo. A nuca era uma caixa lotada de inseguranças cuja fechadura estava trancada e presa por dentro com sete cadeados, mas só precisou de um polegar atento para se fazer abrir. Foi engraçado ele me contando tudo isso depois que acabou a nossa hora e eu meio que já sabia; ele já tinha me falado com o corpo e eu consegui ouvir.

Ou gente, eu até suei aqui lembrando desse rapaz. Vocês me pediram né, para falar sobre esse meu trabalho de massagista e eu assevero a vocês: tocar é um ato de cura. Eu faço minhas massagens sempre tocando nas pessoas do jeito que eu queria ser tocada, como eu acho que minhas feridas iriam respirar melhor depois daquele acesso, daquele vão livre que se abre e por onde minha mão vai encontrando a alma da pessoa e ali vai se ajeitando. Sarando. E eu só deixo alguém fazer isso em mim só às vezes, sabe? No fundo eu acho que todo mundo é um pouco igual àquele rapaz; eu acho que tem umas dores que a gente simplesmente nem sabe que existem. Ou não quer deixar que os outros saibam que elas existem.

E aí meu trabalho é esse aqui, moço, uma exorcista de dores presas em almas machucadas, apertada nesse vestido, sempre tentando agradar meus clientes e sonhando que vou voltar pra minha praia muito mas muito em breve pra curtir um verão de verdade. Obrigada por me ouvirem, o rapaz do cafezinho ali parece que gostou, me achou engraçada foi? Eu que agradeço! Pra terminar, se não for pedir demais, será que um de vocês têm algum analgésico? É que minha dor no ombro hoje tá me matando!

sábado, 21 de março de 2026

Outras como ti.


Por muito tempo eu quis te decifrar, como se nossa relação fosse meu enigma pessoal, minha dúvida ensolarada com cheiro e forma de mandacaru em flor. Minha admiração por montar esse quebra-cabeças sempre beirou o espanto de uma criança incapaz de entender onde cada pecinha modelada se encaixava para formar aquele quadro expressionista meio autêntico, meio copiado; meio clichê e meio obra prima: um cacto verde e vermelho, muito bonito e vistoso, reinando sozinho na aridez de um vale cinza metálico pedregoso. A pintura de um ser tão único quanto complexo, que me dá alimento, proteção e cuidado mesmo quando me machuca com seus espinhos.

Força da natureza brotando num rincão do mundo onde tudo é mais seco e mais duro, mais forte e grosso, a sua estreia não podia ter sido mais dramática. Não é à toa que eu te vejo como uma esfinge faraônica de outros desertos, uma Cleópatra moderna e tropical, mas igualmente poderosa, encravada na rocha onde fez morada compulsória, dominou rápido o chão por onde estão espalhadas suas raízes, espinhos e flores. Árida e doce, é impossível não sentir seu cheiro no primeiro vento do sertão, não te querer já no primeiro centímetro onde começa aquela estrada antiga. É impossível não desejar adiantar o tempo já à primeira vista da torre da igreja que ainda longínqua se mostra formosa irradiando austeridade e força sobre o vale pedregoso impecavelmente desenhado para ser seu lar. A espera do nosso encontro é sempre ansiosa, como o grito engasgado do navegante ao enxergar terra à vista, do astronauta ao pisar na lua, da criança perdida ao de longe encontrar a mãe, como uma fogueira que quer crescer e queimar nos luares de noites frias contrastadas pelo calor intenso de sua presença.

Meu espanto também passa pela constatação de que eu não tenho a sua força, definitivamente. Eu também sou filho do sol, mas você é mais que isso, você é sua herdeira nata de dias ainda mais difíceis. Como uma boa novela que já era sucesso antes de nascermos, seu script, assim como o meu, havia sido escrito gerações e gerações atrás. Os pais ausentes do sertão deixando as mães carentes de amor, estas abraçando o mundo para proteger a ninhada, ainda que sufocasse os filhos. Ah, mas se não são assim nossas famílias desse sertão místico onde o amor é profuso em tantas maneiras paradoxais. Aqui se ama o pai, mesmo quando ele te bate e te deixa. Ama-se a mãe mesmo se ela não te deixa ser quem você é. E assim, entre a ausência do pai e a carência rica da mãe protetora, você foi projeto de amor de uma família despedaçada pelo vento seco do desamor.

Essa herança é a sua e a de tantos como nós, não é? Não consigo não me espantar com tanta dor herdada. Uma dor insuportável e incapacitante em tantos momentos, dor que te impede até mesmo de amar e de superar a aridez da rocha que te nutre mesmo quando muito chove. Essa dor te faz sofrer por não lhe permitir confiar na proteção e segurança que alguém possa, ainda que por acaso, oferecer. Claro, afinal quem foi que sempre lhe segurou senão suas próprias mãos e raízes agarradas com toda força ao chão senão você mesma?

Essa natureza bravia lhe formou flor de mandacaru e você aceitou ser, aceitou ser bonita e vistosa no meio de uma coroa espinhosa, no seio solitário de uma rocha quente, cheia de cor viva, de rubor. Você surge e ressurge a cada dia de sol mais judiada por aqueles que só querem o néctar de sua flor quente e suculenta, mas se espetam profundo nos seus espinhos. Você até machuca, eu sei, mas espinhos são mesmo para machucar.

E assim ressurge viçosa, moderna, corajosa, recolhendo os pedaços a cada desilusão e se refazendo rígida e pontuda. Cada espetada, é o sangue derramado, seu e de quem te alcança com as mãos. Como é difícil e solitária a vida da majestade faraó do sertão, protegida da dor por uma redoma impenetrável, mas cercada de dor pelos mesmos espinhos que bem podiam te deixar amar mais forte.

Se serve de consolo, acredite, embora reinante no céu azul ensolarado desse nosso vale encantado, em outras terras, em outras rochas, existem outras de ti. Existem outros de mim também, embasbacados com esse labirinto difícil de decifrar e que está longe, muito longe, de ser resolvido com essas palavras vagas e meio tortas.

Meu espanto diário com a sua complexidade é o meu companheiro nessa jornada mística de descobrimento, afinal você é a protagonista do meu romance ainda não contado, da história mais bonita que um dia eu possa inventar. Se a sua luz eu jogo sobre mim para me desfolhar e ser espinho, no seu fogo vermelho carnal eu me banho para ser mais forte e intenso.  

Obrigado.

Com amor, Isaac.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Encantamento com a finitude.

Eu queria falar sobre o amor, mas falar sobre isso é olhar muito de perto para o abismo que é a finitude da vida. Então eu vou falar disso, mas fingir que não é sobre amor, vou dizer que é sobre a finitude da vida em si (sabendo que é sobre o amor).

A primeira coisa que a finitude me traz é o medo. Eu tento entendê-lo para através dele compreender o mundo, vivenciar os lutos e só assim esquecer que ele existe. O último balanço da rede, o extinguir da estrela cadente, o último aplauso do último show do artista, o último trago antes de começar o retorno à sobriedade. O medo é o oposto da magia, mas não como antagônico e sim como complemento. Afinal, o medo é a dose de morte na vida e a dose de vida na morte.

É preciso andar na ponte do rio que cai dos medos para se entregar à magia. A magia que é o encantamento, a esperança, a alegria e o conformismo de que isso tudo acaba, mas mesmo acabando, deixou sua história e fez alguma mudança no mundo.

Veja bem, veja essas linhas, por exemplo. Elas não são nada além de traços, agrupamentos de alguma substância química que, em si, não representam nada. Aliás, é preciso um bocado de informação para entender que esses traços arredondados que se juntam e formam palavras, que contam uma história. Eles - os traços - movimentam alguém, causam embaraço, indignação, interesse. É preciso que um ser tenha consciência, tenha visão, que entenda o português, que enxergue esses traços no espectro de luz em que eles foram desenhados, que tenha capacidade de interpretação, compreensão, todo esse quebra-cabeças para transmitir uma mensagem; uma informação partindo de alguém que está vivo hoje mas que vai morrer para alguém que pode nem estar vivo hoje, mas que também vai morrer.

Não falo a partir de uma ótica pessimista, afinal não estou deprimido com a realidade do sopro de vida que me foi dado. Pelo contrário, enxergar o medo da finitude da vida é perceber o tanto de cor que existe em uma aquarela, é sentir o calor de um abraço no frio escuro, é a pequena luz que pisca no céu opaco. É o tudo traduzido na linguagem da vida, é como enxergar um deus, deixar-se seduzir pelo mistério e nele encontrar respostas abertas para tudo que não sabemos o que é. É o complemento um do outro.

Você já parou pra pensar que um dia você acordou dentro de uma máquina super potente, cheia de energia, que praticamente se gerencia a si própria de forma automática, mas que te colocou para tomar as decisões mais importantes? Como compensação para essa árdua tarefa, ela te deu prazeres e te entregou o amor, para que você visse que o sopro de vida tem sim uma função, mudar o mundo de alguma forma. E essa magia só pode ser o amor, pois ela é em parte triste e preocupante, mas também é em parte inspiradora e alegre.

Por isso que entre o medo e a magia existe toda a vida. A vida é o abismo e olhar para dentro dele demanda coragem para deixar sua marca no mundo. 

Não tenha medo do abismo, o amor é o desafio e também a recompensa para se justificar a nossa parca e ínfima existência nesse pequeno planeta que, assim como tudo nessa existência, também um dia vai se acabar.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Do nada ao nada, uma hora vai dar certo.

 


O título desse texto, embora seja aparentemente um pouco deprimente, não é sobre vazios e faltas. Talvez seja justamente o contrário, o de encontrar sentido e preenchimentos para um minúsculo momento que vai do nada ao nada, do zero que existia antes de nascer ao algo diferente do zero, digamos, um novo zero, depois que a gente se vai.

Essa reflexão me bateu numa entrevista que tive com uma pessoa que estava privada de liberdade há uns dias atrás. Estávamos só eu e ele e tínhamos a mesma idade, o que me chamou logo a atenção. Na sala, uma cadeira de escola para cada um e uma mesa nos separando. Entre nós, papéis onde eu anotava coisas que não eram ele, mas uma informação sobre ele que só fazia sentido no mundo dos homens. “Diga-me seu nome, seu número de identificação, onde corre o seu processo, o que houve nesse dia, você precisa de alguma coisa?”.

E ele me dava respostas que só faziam sentido se entendêssemos as coisas dos homens, sobre o tempo do homem, sobre a vida do homem. Ele, preso, porque fez alguma coisa desaprovada por um homem, porque foi assim que convencionaram os homens, porque seus números e dados – ficções usadas para decidir sobre sua vida – disseram que ali ele deveria estar. Eu, solto porque alguém me permitiu, porque foi assim que convencionaram os homens, porque meus números e dados exclusivamente humanos me deram um rumo diferente daquele que diante de mim se sentava na cadeirinha de escola, embora tivéssemos nascido praticamente na mesma data há uns anos atrás.

Eu, filho da terra e da água que habitam esse lugarzinho há bilhões de anos, pequenas partes agrupadas em uma probabilidade minúscula de acontecer, mas que aconteceu. E justamente naquele dia estava eu diante dele, filho da terra, meu irmão, partículas diferentes de água e terra reunidas para formar outro alguém igual - embora diferente - de mim.

Às vezes me pergunto: por que não falamos sobre o tempo das estrelas? Não nos esqueçamos para não perder a ternura jamais: para a natureza éramos apenas eu e ele, duas cadeiras e uma mesa e todo o universo conspirando para que no minúsculo momento marcado entre o nascimento e a morte, pudéssemos ver isso tudo que se passa aqui fora – e aqui dentro. Entre o que vinha antes do nada e o que virá depois do nada, existe uma coisa acontecendo para todos, que é a chance de experimentar a magia e o inferno que é estar vivo.

Éramos nada há alguns anos atrás. Éramos possibilidades e nos tornamos reais. E daqui a alguns anos, seremos apenas uma versão diferente do nada, porque nossas partículas se tornarão outras coisas na dança maluca dessa pequena esfera metálica que flutua sobre o vácuo.

E justamente por não falarmos tanto assim sobre o tempo das estrelas é que estávamos diante do absurdo dessa existência infeliz em que uma pessoa anda solta e outra, presa. Entre nós não havia diferença substancial: as estrelas nos formaram igualzinho, nós nascemos iguaizinhos e vamos morrer para virar mais ou menos a mesma coisa.

Eu não tenho condições de julgar as ações humanas, especialmente as que o levaram até ali, e, se alguém acha que tem, tampouco me oponho. Creio que no nosso atrasado jeito de viver é apenas mais um dos males a que nos submetemos. Salvamos a consciência sacrificando existências. Sempre foi assim, afinal, anda tudo muito mais errado no mundo dos humanos do que certo: nós estamos simplesmente acabando com nossas chances de sobrevivência no planeta vivendo uma vida injusta, ridícula e absurdamente esmagadora para outras pessoas e espécies que compartilham a terra conosco. Não existe uma criança, uma flor, uma formiga ou ornitorrinco que não esteja ameaçado por uma bomba nuclear, por um rio derramando mercúrio ou por uma chaminé vomitando enxofre.

Então o que eu pude dizer para a pessoa sobre as coisas humanas que o oprimiam? Profissionalmente, falei as coisas mundanas que tinha que falar. Mas disse ainda: “aguente firme e seja paciente que há tempo para ser várias coisas nessa vida, esse não precisa ser o seu fim, pois tudo é um novo início”.

Foi o melhor que consegui falar para aliar o mundo humano ao mundo da natureza, mostrar que o nosso minúsculo tempo de existência aqui na terra é grande o suficiente para abraçar o mundo da natureza – que é muito maior que a cabecinha dos homens.

Entre o nada e o nada pode acontecer tudo. E essa é a beleza que vale pra mim, pra você e pra todos.

Estrelas e corações


Uma estrela explodiu lá longe. 

Na noite escura do céu, quando uma estrela explode é difícil não perceber o clarão lá no alto: as cores e formas se engolindo numa dança cósmica inebriante, como se fizessem rodopios ao som de caixa e tambor e ao toque de mãos divinas. Algo como uma pequena escola de samba suspensa no infinito.

O que foi primeiro um pequeno brilho no céu, bem pequeno, foi crescendo aos poucos. Alguns dias depois da explosão, era como se uma luz tomasse conta da noite e não houvesse mais outras estrelas para se enxergar naquele momento. Era tão claro, como se aquela luz deixasse enxergar até mesmo o ar. 

Eu vi essa estrela explodir. Vi seus pedacinhos chegando até mim, me atravessando, me transformando, combinando e reorganizando em uma nova composição. A princípio eu neguei que aquela luz daquela estrela lá longe pudesse me mudar. Quem é ela? Quem ela acha que é? Eu não pedi nenhuma combinação nova em mim. Mas, sob aquela luz que iluminava o céu da noite, eu dancei. Dancei ao ritmo do samba que ela me deixava ver e ouvir, rodopiando, atravessando em si mesma e em mim também, me enchendo de vida mesmo sendo ela só um feixe de luz vagando apática à minha existência.

Depois que ela entrou em mim, seu brilho já era eu.

E aí meu coração explodiu também. Nas noites que insistiam em escurecer, tudo era luz, tudo era cósmico; a existência era uma sinfonia gostosa de se ouvir. Não sei se quando meu coração explodiu ele deixou de existir, talvez por um breve momento ele seja mais que um coração e menos que uma estrela, mas eu sei que ele também existe hoje em outros corações. E depois disso, ninguém mais vagou com apatia, pois o universo estava rico em beleza, em toque, em cura.

O que explodiu lá longe agora brilha em todo lugar, inclusive aqui perto.

domingo, 30 de outubro de 2022

Eu, quem?

Venho tentando ser eu há muito tempo, mas às vezes desisto. É muito difícil encontrar uma razão que justifique o esforço que é se mostrar uma pessoa só, sempre e sempre. Além disso, cadê o meu eu que gostava de fingir ser professor, que brincava o tempo inteiro e adorava olhar para as estrelas, que dançava sem vergonha? Cadê minha criança?

Não acho que seja privilégio meu sofrer sozinho na busca de escolhas justas para mim e para o mundo, livre de interferências e sólida face às incertezas da vida. Justas em parte, porque eu sou fraco, egoísta e minto. Não sei o que fazer com o amor que depositam em mim e tenho dificuldades em retribuir e ser recíproco. Admitir isso me deixa mais próximo do que eu quero ser, claro, mas não diminui aquele esforço. E esse movimento de Sísifo, eternamente subindo pedra morro acima e vê-la rolar desabalada morro abaixo, todo santo dia, só traz angústia.

Tenho inveja de quem crê em deuses ou astros, signos ou mãos, queria ter essas cartilhas ou muletas para ser menos triste. Abraçar a simplicidade, a idade, a cidade, a felicidade, que para Nietzsche é a ignorância. E eu concordo com ele por um lado: quanto menos você se importa com os problemas, menos eles te incomodam. A questão é que muita gente toma o caminho oposto, tem na ignorância a chave para a maldade (consigo e com os outros) e não para a felicidade. Afinal, não é preciso ser triste para ser consciente, dá para ser triste e ser um filho da puta também.

Nessa luta para descobrir quem sou, preciso me ouvir mais e resgatar minha criança. Quebrar a casca grossa do adulto e deixar sair o que me aprisiona e entrar o que me liberta. Eu vou iniciar esse processo e desistir várias vezes, mas não vou deixar de fazer, prometo. Esse caos aqui dentro, essa confusão, vai sempre existir, eu só preciso respirar e olhar para estrelas e dançar que vai dar certo.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

A luz acesa no teto da sala.


Então você nasce. Assim, simplesmente nasce. Acenderam um interruptor e agora aquela luz no teto da sala que vê e escuta, que toca e é tocado, é você. Brilhando todo dia sem saber o porquê e o como, vendo as coisas ao seu redor existirem e você supostamente tendo que fazer alguma coisa a respeito delas: comê-las, se defender delas, usá-las como arma para conquistar alguma coisa, às vezes todas ao mesmo tempo, às vezes nenhuma delas. Até que um dia um dia você olha para o espelho e diz, “esse sou eu”, esse nariz feio é meu, esse andar esquisito de como quem está pulando é meu, esse desconforto de não saber olhar as pessoas no olho é meu, a incapacidade de dizer não em muitos momentos e a vontade de agradar todo mundo ainda que custe a minha própria saúde são minhas. E é claro que tudo que é seu é também produto dos meios que lhe criaram, afinal você também aprende que da semente do feijão vai nascer outro feijão. Mas não é o mesmo feijão, é outro, só que parecido. Um feijão que é introspectivo e guarda as mágoas sem saber se abrir, igual ao meu pai, e dependente da companhia de alguém ainda que esse alguém seja ruim para mim, igual à minha mãe.

Você também aprende que aquele interruptor pode ser desligado, mas mesmo assim não desliga - ou não tem coragem de desligar. Sua luz ilumina outras pessoas e você sabe que a tristeza não é outra coisa senão o outro lado da alegria, assim como o frio da luz apagada é só o outro lado do cheiro e da cor dela acesa. E também porque, se você pensar bem, há outras formas menos dolorosas de enxergar o escuro e de fazer com que o seu redor tenha mais beleza e mais prazer.

Afinal de contas, de um ponto de vista, você nunca se mexeu, tudo se mexeu o tempo inteiro na sua frente com a sua participação. Igual à luz no teto da sala, você viu a sua vida acontecer na sua frente e embora os outros digam que você está se mexendo, você viu tudo isso pelo seu olhar, pela sua luz. É por isso que não dá para fugir dos problemas, afinal você em Paris, em Roraima ou em Varginha é ainda você. Apague a luz e ainda vai ser você. Too bad.

É esse, então, o único e o grande custo da sua luz: o dever de enxergar as coisas de forma diferente é de ninguém senão seu. As mágoas guardadas, a introspecção do pai ou a carência afetiva da mãe são minhas também, elas são algumas das coisas que a minha luz enxerga, mas o peso de querer viver nessas circunstâncias é meu enquanto aquele interruptor estiver aceso. Essa mesma luz que no espelho diz “esse sou eu”, deixa que eu faça tudo para brilhar ainda mais, me libertar, experimentar, fazer diferente, ousar, criar, passar uma tinta rosa no meio da cara como se fosse carnaval, tocar as flores mais bonitas e coloridas do jardim, sair na rua vestido de um novo eu, dançando e andando com pulinhos ouvindo gloria groove. No fim das contas, a constatação é essa: é ridícula a quantidade de coisas que dá para enxergar por uma luz só no teto da sala. Ufa, ainda bem!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Inauguração


Pode parecer meio viajado, ou viajado até demais, mas você já parou para pensar como é esquisito o nascimento? Não estou falando SÓ do nascimento de um bebê, mas do nascimento das coisas e seres em geral. O da plantinha, o do boi, o do menino chorão. O do adulto chorão, o das cachoeiras, das montanhas, dos tsunamis, dos furacões. O nascimento da pedrinha, do microbiozinho, do vírus, do planeta ali do lado, do lodo que gruda na tigela de água onde seu gatinho, que também nasceu um dia, bebe água. Da água mesmo, do ar, da terra. Tudo nasce, tudo era uma coisa e passou, de uma hora para outra, a ser outra, assim, quase que do nada.

Claro, não é sem motivo que um bebê nasce ou que você se descobre uma outra pessoa. Tem muitos processos acontecendo o tempo inteiro para que coisas nasçam a partir de outras coisas, que vão se juntando, se misturando para depois virar outras coisas e assim sucessivamente, para todo o SEMPRE. E é legal imaginar que essa é a única forma que a palavra SEMPRE realmente se aplica. Não é do jeito que a nossa metafísica limitada acha que as coisas duram para “sempre”, porque nada dura para “sempre”, mas sim, que as coisas SEMPRE mudarão. Vai lá no inglês e me diga com que parece a palavra Always: “de todo jeito” ou “todos os caminhos”. Eu nem sei se vem daí essa palavra, pois eu só sei falar inglês o suficiente para não morrer de fome e sede por uns dois dias, mas o que eu quero dizer é que SEMPRE quer dizer “vai mudar”, de todo jeito.

E nesse processo eterno de nascer uma coisa que era outra, a gente pega muita, mas muita carona. Afinal, queira você ou não, a diferença entre uma poça de lama e uma pessoa é meramente de organização das coisas minúsculas que juntas vão dizer se você é uma poça de lama ou uma pessoa. Os astrônomos poetizaram isso, dizem que nós somos “poeira de estrelas”. David Bowie, holístico, já meteu Stardust no meio de suas canções e assim todo mundo agora sabe que, de alguma forma, é também parte dela, dessa matéria que vaga no universo e que acontece de formar você e eu, justo aqui e justo agora.

Então é assim, todo mundo se inaugura, partindo de algo que era antes e que agora vai ser outra coisa. Entre nascer um microbiozinho e um furacão, nasce um homem que larga tudo que lhe era caro por conta de um trabalho novo, inaugura-se uma pessoa apaixonada, nascem desapontamentos, nasce um ansioso, nasce tristeza e nasce alegria nas incríveis coisas novas que esse homem nunca esperaria viver. Inauguramos versões de nós mesmos para poder viver o nosso tão curto “sempre” da melhor forma possível. E convenhamos, é muito curto esse tempinho aqui no meio de tudo que não é nosso nem nunca vai ser para se negar a aceitar que essa inconstância é a única constância que existe, que dá tempo ser muita coisa antes de ir de vez e de fechar os olhos para nem ver mais o que seguiu nascendo. Aprendizado, é esse o outro nome dessa inauguração tão festiva e dolorosa.

Por isso que é tão bom conhecer lugares novos quando dá. Assim como é ótimo desistir do filme no meio do cinema, sair das roubadas, pular as fogueiras. Pegar uma estrada desconhecida, pular uma cerca. Querendo, dá para inaugurar um universo novo todo dia, dá para fazer nascer o inédito. Porque no fundo - e daqui a pouco - todo mundo é e vai ser SEMPRE poeira.


sábado, 4 de julho de 2020

O Pastor maremano.

Eu gosto de gente. Gente homem, mulher, crianças, bebês. Gente de brinquedo também dão conta, mas é claro que eu prefiro uma boa agarrada numa perna que se mexe e é quentinha. Eu adoro pernas de gente, sabe, sei lá, parece que, quando minha libido está a mil, as pernas dos humanos são ideais. Às vezes, me deparo com a perna do Nagib e me sobe aquele calor e eu imagino que é a Princesa ali, às vezes imagino que é o Bilota, não importa, pois eu também resolvo muito rápido, muitas vezes não dá nem tempo dele perceber, fecho os olhos e pá, já era. Às vezes levo uns chutes, noutras ele fica rindo de mim, eu não entendo, de verdade, mas eu sou feliz assim, não me julguem, só em pensar na Princesa ou no Bilota eu fico desse jeito. Às vezes eu fico assim também quando estou com fome e, pensando bem, coitado do Nagib, porque se tem uma coisa sobre mim é que eu estou sempre faminto. Bom, tem também aquelas vezes em que eu gosto de agarrar as pernas dele enquanto penso nos meus pirralhos, é como se elas fossem o próprio Hercules, meu filhote (agora você me lembrou que faz tempo que não o vejo, onde será que ele está?) ou um dos meninos do Bilota e logo me dá aquela vontade de cuidar, de lamber. Louco isso né? Também não sei explicar não, só acontece, é bem forte e eu gosto muito, não consigo nem me conter. Tem vezes que eu sei que é só uma perna mesmo, de gente humana. E ainda assim vale a pena lambê-la de vez em quando. Acho que eu sou meio esquisito, mas me perdoem, por favor, eu sou assim, é meio jeito!

Eu gosto de verdade de gente humana, normalmente eles me tratam bem e me dão quase tudo que eu quero e eu quero muito pouco, na verdade, um pedaço de carne só pra mim, um prato de ração só pra mim, um frango só pra mim, um bolo só pra mim e um biscoito só pra mim. E toda vida ficam: "Zeus, chega de comida, Zeus para de querer comer no prato do Nagib, Zeus, saia já de cima da mesa!". Tá, não fique aí pensando que eu sou só egoísta e bagunceiro, eu tenho muita fome e eu faço muita coisa, eu mereço. Olha, pensando bem, acho que minha fome só aumenta porque eu passo o dia vigiando a casa para não deixar ninguém entrar e isso dá um trabalhão, ficar latindo alto o tempo inteiro cansa!

Acho que aprendi a ser assim, faminto e barulhento, com meus pais e, mesmo que eu não me lembre deles, é assim que eu sinto! Toda vida quando um humano novo me vê pela primeira vez sempre diz: "Olha, um pastor maremano!". Bom, meu nome é Zeus, não é pastor maremano. E o Bilota é o Bilota, não é "vira-lata" como sempre dizem por aí. Os humanos que moram comigo concordam com isso, tanto que nunca me deixam faltar nada e sempre me tratam bem e vivem rindo das minhas coisas, não sei bem o porquê, mas por exemplo eles acham engraçado quando eu pego uma bola verde que o Nagib vive perdendo e eu vou lá e sempre busco pra ele. Dia desses eu até consegui pular o portão só para pegar a bola que o Nagib tinha acabado de perder! Eu corri com todas as minhas forças, atravessei o gramado, me agarrei na grade e lá em cima vi que tinha uma abertura mais larga que dava pra eu passar e passei! Sofri, mas peguei a bola do Nagib. Eu não sei porque ele brigou tanto comigo nesse dia. Mas também, coitado, eu acho que o Nagib não é tão feliz quanto eu, porque eu vejo ele sempre meio triste fazendo as mesmas coisas e solitário, acho que ele não sai muito, pelo menos ele sai menos que eu, que todo dia, no começo da manhã e quando o sol está se pondo, dou meu passeio. Tá, eu uso uma coleira, não é tão legal por causa disso, mas eu amo ainda assim e isso faz meu dia. É a melhor sensação! Não tem ração, não tem biscoito, não tem perna, não tem nada que me impeça de sair, eu até seguro meu cocô e meu xixi para coroar essa hora mágica. Posso dizer com segurança que sair de casa faz parte de mim. E além disso, lá fora eu consigo encontrar quase sempre o Bilota, porque ele mora depois da grade, do outro lado da rua e dorme debaixo da marquise do vizinho. Ele é meu amigo, tanto que eu o respeito e nunca quero a comida dele, mesmo que eu esteja com fome como eu sempre estou (acho que já disse isso né?). O Bilota não usa coleira como eu (não sei porque ele não usa) e é bem diferente de mim, mais magro, marrom. Tem sempre alguém que dá comida pra ele, mas eu acho que ninguém cuida dele como cuidam de mim não.  Outro dia vi uma pessoa o chutando na rua, não sei o que o Bilota fez, mas ele vive machucado, acho que briga muito, mas não comigo pelo menos, ele late pra mim e eu pra ele, quase sempre é assim: lato pra ele e pros filhotes dele que já estão quase do seu tamanho (por falar nisso, cadê o Hercules? Lembrei agora, nunca mais o vi).

Eu acho que o Nagib é mais novo que eu, ele não é tão grande quanto o pai nem quanto a mãe, acho que é adolescente, ele deve ter uns quinze anos de idade humana, pelo menos é o que eu acho. Ele me lembra muito meu filhote, o Hercules, que era acanhado, meio fracote também, mas muito esperto. Não sei quantos anos na idade humana significam o infinito, mas no tempo dos cachorros, qualquer dia sem meu filho parece isso: uma eternidade. Eu às vezes me esqueço, mas depois me pego lembrando dele correndo no gramado tão feliz, nossa, quanto tempo faz isso? A última vez que o vi, um humano estranho estava com ele nos braços e eu vi quando ele entregou algo que eu acho que era dinheiro para o pai do Nagib. Eu lati muito, mas não teve jeito, o humano levou o Hercules embora e meu coração ficou destroçado.

Acho que eu nunca mais confiei tanto no pai do Nagib depois disso. Mas, ainda assim eu amo muito o Nagib, ele é o máximo, eu só amo mais que ele o meu Hercules, o Bilota e a Princesa. Tá bom, hoje em primeiro lugar, quem eu amo mais do que tudo quem é a Princesa. Sempre que ela passa aqui na frente, me deixa louco, eu até esqueço do que eu estou fazendo e me ponho a latir desesperadamente ao vê-la passar em frente ao portão da nossa casa. Ela também tem coleira como eu e tem sempre um lacinho vermelho pequeno na cabeça, e também tem o humano que cuida dela, só que mais velho, mas que parece gostar muito bem dela. Vivem chamando-a de 'poodle', mas pra mim ela é só a Princesa. Eu não sei que perfume ela usa, mas tem alguns dias que eu simplesmente não me seguro, eu enlouqueço, lato muito mesmo, eu não consigo explicar, só sinto sabe? A Princesa é a coisa mais linda desse mundo, mais até que o Bilota, e olhe que eu também sinto essa coisa com o Bilota, mas a Princesa tem um cheiro...

Mas eu vou contar o que aconteceu naquele dia, pelo menos vou contar o que eu me lembro. Nagib estava dormindo e já era bem tarde e muito quente mesmo,  tanto que eu presumi que era um dos dias que eles chamam de domingo. A Princesa tinha acabado de passar pelo portão e ela tava com aquele cheiro do cio. Eu fiquei louco. Lati muito para Nagib sair de casa, me colocasse a corda na coleira e me abrisse o portão, mesmo que não fosse a hora ainda. E olhe que eu nem estava com vontade de fazer cocô ainda e tão pouco tinha terminado de comer minha ração do almoço. Mas Princesa, ah meu bom deus canino, eu não me segurei. Lembrei daquela grade mais larga, lá em cima do portão, a que eu tinha conseguido vencer uns dias atrás, corri, atravessei o gramado, subi e: livre! Livre para a Princesa! Eu ainda ouvi de longe alguém gritando meu nome: "Zeus, Zeus, volta aqui!" mas confesso que eu não queria saber de mais nada, meu coração estava acelerado, metade porque eu estava livre, metade porque eu queria sentir Princesa e aquele cheiro dela, meu deus que cheiro era aquele! E assim, meu coração pulsando como nunca, eu estava cego de paixão: pela rua desamarrado, como sempre quisera fazer, pela delícia que era sentir todos aquele cheiros e sabores tão rica e tão suja rua (que delícia meu deus), e por Princesa, que me chamava com seu odor, me dizia: “vem meu Zeus”.

Eu corri muito, confiando no meu olfato, mas de alguma forma, quanto mais eu corria, menos eu sentia o seu cheiro. Eu andei bastante e, em algum momento, já nem sabia mais como voltar para casa nem senti Princesa. Acho que ela deve ter se escondido em algum lugar ou será que eu corri para a direção contrária? Eu realmente não me lembro o que aconteceu, porque depois de alguns quarteirões e uns parques no caminho, enquanto eu parava para descansar, um carro preto com vidros fumê parou do meu lado. Na janela eu notei que havia um humano homem na direção e uma humana fêmea na parte de trás. Ambos abaixaram o vidro e foi quando eu percebi que ela tinha um biscoito de ração na mão. Vocês sabem, eu tenho muita fome e não resisti: fui atrás do biscoito, ainda mais porque eles pareciam estar me chamando, era parecido como o Nagib faz quando me chama. “Cachorro, cachorrinho, garotão”, nem sei o que isso tudo significa, mas parece que eu sou um deles ou todos eles. Eu sempre tive quase certeza que eu era mesmo Zeus, mas mesmo assim saltei para dentro do carro que tinha agora as portas abertas e, meu deus, aquele biscoito estava mesmo delicioso. A mulher me fez um carinho nas orelhas e eu amo carinho nas orelhas. Amo mais ainda os biscoitos que ela tinha em uma sacola no seu colo, comi-os com pressa, tanto que fiquei bem calmo e relaxado. O carro andou.

E foi assim que eu cheguei aqui. Eu só queria encontrar Princesa, mas agora eu não vejo nem o Nagib, nem Princesa, nem Pilota, nem mesmo o pai do Nagib que sumiu com o Hercules dia desses. Eu só vejo pessoas estranhas, todas com um certo aspecto sombrio e de maldade. Vi quando uma pessoa, um homem, todo vestido de preto, chegou para alguém que parece ser o dono da casa e disse: "Senhor Presidente, temos que resolver um assunto urgente", ao que este o respondeu com um bocado de palavras que eu não sei o que significavam, mas que eu lembro que eram algo do tipo: “viado escroto, vai usar seu ânus para excremento, prefiro ter um filho ladrão a um filho viado”. Depois ele ficou falando que “índio era peso morto e umas arrobas a menos não fariam falta”. Ouvi ainda quando ele disse: “E daí que vai morrer gente? Todo mundo morre!” Eu realmente não sei o que são essas palavras, o Nagib pode ser meio duro comigo, mas eu nunca fui tratado como aquelas pessoas a quem o senhor mais velho “O Presidente” se referia. A única coisa que eu entendi de verdade foi quando ele disse: “Quem procura osso é cachorro”. Bom, nisso eu concordei, mas não entendi muito bem.

A mulher que me deu biscoito, eu acho que ela não gostava de cachorros. Ontem mesmo eu vi o Pilota pelo vidro da porta, na rua, como sempre faminto e marrom. Acho que ele é marrom de sujo, na verdade, ou então um pouco mais marrom porque não toma banho. Ela passou por ele e o tratou mal, tão mal que me lembrou alguns humanos que vez por outra chutavam o Pilota lá na minha rua. De qualquer forma, eu não entendi o que eu fazia ali. Meu nome é Zeus, mas insistiam em me chamar de Augusto! Eu não precisava de outra casa, o Pilota sim, mas ele não teve chance. Às vezes eu acho que os humanos fazem menos de mim, afinal por que trocaram meu nome que, até onde eu sei, estava escrito na minha coleira? E por que eu tinha que tirar tantas fotos e ser tão paparicado, me chamando de zero cinco, zero seis, pequeno príncipe... Eu sou o Zeus, amigo do Nagib, do Pilota, pai do Hercules, gosto de carne moída, bolo e biscoito, é só isso! Eu queria ficar com a Princesa, mas não queria ser príncipe.

Ainda bem que o pesadelo acabou logo. O Nagib e o pai dele (nós temos nossas diferenças, você sabe), ficaram sabendo que eu estava por aqui, não sei como, e vieram me resgatar. O homem que chamavam de Senhor Presidente não deu a mínima, parece que ele tinha pelo menos uns dez humanos vestidos de farda verde-oliva para receber a toda hora, e todos o cercavam e o bajulavam, como eu mesmo faço com algum humano que tem bolo, carne ou biscoito na mão. Bom, melhor assim, com certeza eu prefiro minha vida de Zeus sem sobrenome do que aquela de Augusto com sobrenome de gente ruim.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Fogueiras apagadas do São João.

Hoje é dia de São João do ano de 2020. Um dia sem fogueiras, sem abraços, repleto de falta.

Fosse em outros tempos, uma centelha bastaria para acender o fogo vivo que é a lembrança de um tempo de fartura, remissão direta à rica colheita do milho, à curta bonança das chuvas do semiárido, ao sincretismo que toma emprestado da religião seu nome, mas se engancha mesmo nos pecados da música, do suor e da bebida. As memórias da infância chegam a galope e nos levam montados em trajes típicos, dançando quadrilha e respirando fumaça de fogueira a noite inteira, enquanto canjicas, pamonhas e milhos assados revezam entre as bocas sem freio e sem dó. Lembranças e saudades que se traduzem em alegria e despertam na gente aqueles sorrisos bobos como de quem está apaixonado, lembrando da pessoa amada no meio de uma tarde nublada. O São João é um desses patrimônios que a gente pode usar como retrato de humanidade, para não deixar a gente esquecer que vale a pena estar vivo.

Mas para nós, hoje, há esse estalo. Um branco, uma quebra no tijolo. Uma realidade dura que tarda a passar e deixará lembranças, mas não deixará saudades. Uma faca cega que, ao rasgar feridas abertas, expôs o nosso pus como sociedade: desigualdade cruel e persistente que é a verdadeira assassina de milhares de pessoas todo dia. Não é que estejamos enfrentando só uma doença do pulmão, é uma doença da iniquidade e do descuido, que se soma a todas às nossas outras deficiências, defeitos e maldades.

A sensação que fica é de que essa falta corrói, desanima, enluta a mais clara luz do dia. Parece que a fogueira apagada do São João se reflete na frieza de coração peito adentro: parece que ele está assim mesmo, apagado, sem sentimentos, fazendo-nos menos vivos, menos alegres. Ao nos negarem os abraços e os beijos, parece que vai batendo devagarzinho, como se lhe faltasse uma quadrilha, um forró para acelerar, como se lhe faltasse fogo. Para muitos, falta até mesmo compaixão.

Na verdade, a falta de calor no coração é a única que pode matar de desamor um apaixonado e, principalmente, de frio um nordestino. 

terça-feira, 9 de junho de 2020

A História Privada da Baía dos Golfinhos.



Antes de ir, sempre olho a maré.

Não, eu não sou uma pessoa do mar; nasci e me criei em um chão rachado de muito calor e pouca água, tanto que a chuva sempre foi o mais esperado e desejado dos eventos. Como as nuvens que a traziam, a chuva costumava vir carregada de emoções, fosse pela constante repetição das minhas tias e de meu avô sobre sua importância para as lavouras, fosse por sua estrondosa celebração entoada de gritos de alegria e emoção quando a cada inverno ela se mostrava, ainda que escassa, fosse pelas maravilhas que ela proporcionava visivelmente, como um bom banho nas biqueiras das casas de toda a cidade ou a aventura tão única de acompanhar objetos serem carregados pelas torrentes que se formavam nas ruas onde durante meses só se via aquele vapor que fazia tremer as imagens que se lhe atravessavam. É engraçado, mas embora a chuva seja um evento natural que, como todos os outros, pode ser tão danoso quanto necessário, para o seridoense ela sempre é bem vinda. Você vai ter que procurar muito até encontrar algum sertanejo que caçoe da chuva e, se encontrar, pode apostar que tal desgosto terá sido momentâneo, passageiro ou ingênuo, como aquelas birras infantis que toleramos por um instante com sofreguidão em troca da alegria e do sorriso quase que perene no rosto das crianças que amamos.

Mas não é bem sobre a chuva que queria falar, mas sim sobre as marés que tenho que olhar antes de ir. Pois bem, não há marés no sertão e isso se reflete muito sobre minha relação com o oceano: o vislumbre mais amoroso que tinha do mar era imaginar como seria caso um cataclisma elevasse as águas do Atlântico e Caicó fosse, enfim, uma cidade praiana, de preferência a nova capital de todo o Nordeste. Esse desejo sempre foi declarado e, ainda hoje, quando tenho que prestar atenção na altura da maré para chegar ao meu lugar preferido no mundo, não deixo de imaginar que ele está intrinsecamente dentro dos limites da terra natal, como se muitos quilômetros fossem nada, como se fosse finalmente uma daquelas praias que eu imaginava na beira do açude Itans, ou na baixa do Rio Seridó, sempre tão secos, mas sempre evocativos de uma grandeza única do Sertão que, na imaginação de quem sonha acordado, um dia viraria mar. 

Ali, onde inequivocamente constato que sou do sertão e não do mar, esse meu lugar favorito no mundo, é a Baía dos Golfinhos, uma pequena faixa de terra parcialmente isolada onde só se alcança pelo caminhar da praia a partir do centro da vila de Pipa. Para se chegar lá, é preciso observar a maré, pois não se consegue atravessar as rochas com as águas elevadas e, ao mesmo tempo, é preciso pensar no tempo em que pretende ficar lá, visto que a momentânea abertura com o resto das coisas lá fora tem hora marcada para se encerrar. Talvez essa tensão entre ser possível ou impossível a depender da hora do dia tenha muito a ver com o amor: tem horas que você ama alguém com toda ternura, mas ela simplesmente está fechada em si, perfeitamente arredia e bela servindo nada mais que a si mesma com suas manias e trejeitos. O amor é como esse abrir e fechar das marés na praia: se for muito, estraga, se for pouco, morre de inanição. E esses mundos são igualmente lindos, esteja eu lá ou não, como a Baía, que noite e dia está lá, há milênios, acompanhando a água subir e descer, o sol lhe queimar a areia e a lua a lhe beijar em seguida, como se fosse para sarar de todo mal.

Mas meu carinho pela Baía tem todo um significado particular. Para mim, ela é importante não só pelo que lá aconteceu, mas também pelo que pode vir a acontecer - ou até não acontecer. Diferente de alguém que, por exemplo, admira as praias da Normandia apenas por nelas ser capaz de recriar mentalmente eventos que mudaram o curso da história, eu admiro aquele panorama azul-verde de águas calmas e quentes, mesmo que desprovida de eventos magnânimos. A Baía já foi testemunha de pessoas que se amavam, que se amaram e que já partiram, lá vivi momentos que marcaram o curso da minha história, como os acampamentos na praia, onde vivemos o de mais doce e mais amargo que a juventude nos permitia ao redor de uma fogueira e de algumas garrafas de vinho. Mas ela já foi testemunha de muitas outras aventuras além das minhas; silenciosa ela guarda muitos segredos que não estão nos livros de história. 

E é assim que eu relaciono meu lugar preferido no mundo com as pessoas que amo e que tanto me fazem ser eu. Meus lugares são eles, onde todas as características até agora citadas se aplicam: a intermitência das marés e de seus humores, a beleza estonteante sem nenhuma óbvia razão, a momentânea abertura que permite em que neles deixe algo e deles traga algo. Em nenhum busco êxitos alardeados, feitos impressionantes ou especialidades e diferenças importantes, pois antes ou depois disso, serão igualmente detentores de um pedaço de mim e eu deles.

A Baía é linda antes ou depois de algo relevante lá acontecer, como um belo quadro de uma paisagem sem nome, mas que teria muito a dizer sobre mim e sobre muitos. A mudez da pintura que não fala senão por suas linhas curvas como uma onda, ou um sorriso, o beijo, a lágrima, o olhar. Como a chuva que cai no sertão que ainda me alegra hoje, mesmo tanto tempo depois de não mais viver as intempéries da seca sertaneja, o que há nas pessoas únicas e raras que amo é esse antes e depois inseparáveis de alguém. É o que me fascina tanto quanto esse lugar e o fato dele ser singular. Eu ainda sou sertanejo, mesmo morando perto do mar. 

Se você quiser me conhecer um pouco melhor, pergunte à Baía ou às pessoas que eu amo, elas com certeza terão histórias para lhe contar, mas nunca, nunca se esqueça de olhar a maré.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

E as tartarugas, o que acham do Meio Ambiente no Brasil?

Fonte: Projeto Tamar

Os humanos que fazem parte do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, um lugar habitado por muitos humanos, mas também por tartarugas, lobos, onças, rãs e muito gado, deu mais um passo na direção de avançar no projeto de tirania da espécie dos sapiens na semana passada ao anunciar o fechamento de três bases do Projeto Tamar de Conservação de Tartarugas Marinhas (https://www.otempo.com.br/brasil/projeto-tamar-ministro-ricardo-salles-fecha-tres-unidades-1.2343278). O projeto é conhecido por assegurar áreas protegidas para a reprodução dos répteis testudinos e seu fechamento implica em uma maior competição pelos espaços de ninhada e a consequente maior perda de ovos e filhotes indefesos para os predadores naturais.

O fechamento foi interpretado pelos conservacionistas humanos como um duro golpe para as tartarugas marinhas, que assistem ao assalto impune dessas áreas cruciais para estes répteis, cujas espécies enfrentam, em alguns casos, o risco de extinção. As bases estavam localizadas no litoral do que se chama de estados do Rio Grande do Norte, Bahia e Sergipe.

Diversos primatas mais evoluídos se manifestaram contrariamente à medida, apontando que o fechamento faz parte de um desmonte da rede de proteção ambiental do Ministério que hoje é comandado por primatas menos evoluídos. Os ativistas aproveitam para reiterar o alerta sobre a esgotabilidade dos recursos naturais e dos efeitos balanceadores da natureza para buscar o equilíbrio, causando a diminuição das condições de vida dos mesmos humanos que acreditam estar fazendo o bem ao "passar a boiada".

As tartarugas marinhas, por sua vez, estão preocupadas. O Conselho das Tartarugas Marinhas do Planeta Terra, uma organização não governamental composta por tartarugas de todas as espécies, em nota de repúdio, confessou que suas ações têm sido ineficazes face ao constante avanço belicoso dos humanos. Segundo a nota, os golpes são muitos: ano passado foi um derramamento gigantesco de óleo no Atlântico, acompanhado de taxas recordes de despejo de lixo no mar. O aquecimento das águas como consequência do efeito estufa também foi lembrado, pois tal fato impacta toda a cadeia alimentar da maioria das espécies que coabitam os oceanos. Ainda de acordo com a nota, os bebês-tartaruga agora têm menos chances ainda de sobreviver à altíssima taxa de mortalidade infantil que assola as Testudinas no mundo inteiro.

Os humanos do local conhecido como Brasil, acostumados a notas de repúdio, alegam, contudo, que suas ações não são de todo prejudiciais. Sustentam que boa parte dos humanos já não podem usar "canudos de plástico", fato que não foi plenamente compreendido pelas tartarugas, uma vez que, na língua das testudinas, "canudo de plástico" é traduzido simplesmente como "lixo".

O prognóstico não é nada animador a curto prazo, especialmente para as tartarugas, mas diversas organizações não governamentais compostas por animais como lobos, onças, rãs e bovinos tentam acalmar os ânimos e insistem em manter a calma, pois a cobrança do equilíbrio da natureza já está a caminho. Segundo as ONGs, "a conta é alta e os humanos não têm como pagar, logo, recuperaremos nossa paz sem eles", dando a entender uma possível extinção dos humanos. Embora prazos não tenham sido mencionados, as ONGs afirmam que os sinais de que os sapiens estão perdendo a guerra estão em toda a parte e que o processo não deve demorar muito: "não é mais uma questão de 'se', mas de quando e como".



quinta-feira, 7 de maio de 2020

Uma geração que falhou.




Ultimamente as coisas não vão bem. Não vão bem no plano pessoal e no plano geral, se é que se pode separar tais categorias. Quando eu era criança, acreditava que dava para dividir, que existiam duas partes de uma percepção sobre a vida: aquela referente aos rumos do mundo, do país, da comunidade, da família e dos outros em geral, e aquela que me tocava internamente, meus medos, minhas falhas, minhas conquistas, meus erros. Eu nunca imaginava que elas pudessem se juntar e formar uma espécie de expectativa única da experiência terrena, ainda mais vivendo em uma cidade tão pacata e isolada como era a Caicó dos anos 90.

Hoje eu me pego pensando nos eventos trágicos que testemunhei ainda criança como a morte dos mamonas assassinas, acidentes aéreos, a desvalorização do dólar, Ayrton Senna, a derrota na copa de 98, o 11 de setembro. Todos foram, claro, muito comoventes, mas eu achava difícil me relacionar com eles diretamente, talvez porque fosse muito novo pra entender, talvez porque o Brasil do interior fosse (e ainda é) um local bem diferente do que chamavam de Brasil. Ali, o anonimato é o nome verdadeiro de todos os Joãos e Marias batizados no chão rachado da seca e do descaso. De tanto esquecimento, era facilmente possível viver várias vidas fugitivas no interior do Nordeste sem se preocupar nunca em ser encontrado, mas suponho que até para o foragido mais procurado, o interior do meu Caicó era pena mais dolorosa que prisão no Brasil que passava na televisão. Muito quente, muito longe, muito pobre, muito nada.

Mas a gente vai crescendo e deixando de ser sonhador, ou ao menos trocando os sonhos por uns mais possíveis. Se nos chamavam de geração do futuro, precursora da era da tecnologia, se diziam que seríamos capazes de revolucionar o mundo, tudo isso ficou para trás. A tarefa de minha geração de entregar um mundo melhor está sendo indiscriminadamente sepultada dentro dos caixões enfileirados nas valas comuns.

A realidade da vida adulta conseguiu juntar as duas expectativas em uma só, enfim; suponho que é o fim de uma das magias de ser criança. A minha felicidade, afinal, passa pela felicidade do próximo, do país, do mundo, da comunidade, da família e dos outros em geral. E hoje não está dando para encontrar felicidade em um país onde se cultua a tortura, onde o sofrimento da morte pela obra da ignorância humana é relevado sem pudor, quiçá exaltado, onde a vida da pessoa jurídica é mais importante que a da física. Não dá para planejar e executar os projetos pessoais em um país arrasado por uma doença: a doença do mau-caratismo. As coisas não vão bem no plano pessoal e no plano geral porque eles são uma coisa só, a culpa de não sermos pessoas melhores é toda nossa.


sábado, 2 de maio de 2020

O Himalaia invisível em cada um de nós.

Fonte: Site Folha de S. Paulo, 9 de abril de 2020.

Indianos conseguem enxergar o Himalaia pela primeira vez em mais de 30 anos”. Essa era a manchete curta, mas chamativa. A gente aprendeu que informações curtas e chamativas fazem mais sucesso ao ponto de termos praticamente abandonado o hábito de ler grandes textos ou fazer grandes reflexões amparadas em pesquisas robustas. Talvez o fato de não enxergar o Himalaia esteja relacionado com o fato de não enxergarmos mais muita coisa nessa que chamam de era da informação. Mas apenas talvez, esse não é o tema desse texto, eu quero mais é focar na cegueira daqueles que nunca viram o Himalaia, incluindo eu e você. 

Eu e você nunca enxergamos as montanhas mais altas do mundo porque nunca estivemos lá, segundo consta. Mas o que dizer do habitante de Jalandhar, por exemplo, que mora a 230km da maior cadeia montanhosa do planeta, dos 100 maiores picos do planeta, todos acima de 7200m de altitude, nada menos que o local chamado de “teto do mundo”? Imagine a cena: um belo dia você olha pela janela de sua casa e o que era o céu de fumaça se convertera em um imenso paredão cujos cumes gelados coroam uma majestosa e inimaginável natureza distante poucos metros do seu quintal. Seria como acordar um dia e tocar suas guelras, embora não saiba nadar, ou abrir suas asas longas e fortes e não saiba voar. É como se todos nós fôssemos Usain Bolt’s, mas as pernas só usássemos para apertar um pedal após o outro, num fatigante exercício de repetição enfadonha e mortífera do dia a dia que o sistema nos obriga; engrenagens humanas ao estilo Charles Chaplin do século XXI. Se parar para pensar bem, a gente é mesmo capaz disso, na verdade, essa coisa da autossabotagem e também da autocomiseração: todo mundo quer mudar o mundo, mas que comece pelo outro.

Mas, sem falar de asas ou guelras ou velocistas de olimpíadas, trazendo para um universo mais palpável, como imaginar que qualquer indiano de Jalandhar com menos de 30 anos nunca conseguiu enxergar o seu vizinho imponente simplesmente porque a poluição não o permitia? 

Talvez poluição seja tudo isso que nós fazemos conosco: a nossa submissão ao nosso mundo colonizado, nossa cegueira deliberada frente ao outro, à absurda falta de consciência ambiental porque cremos ser infinitos todos os tempos e matérias, todos os espaços e tudo mesmo, sem exceção. Nunca se produziu tanta informação, tanta pesquisa e, paradoxalmente, nunca enfrentamos tamanha onda de ignorância que anuvia nosso pensar, nosso jeito de viver, de se relacionar, de ser, enfim. Em uma pandemia, até os números de mortes e vida dividem espaço com os números de uma economia que supostamente foi feita para permitir uma melhor gestão disso mesmo, da vida. É o outro que está morrendo, tanto faz. “E daí?”, diria alguém sobre as milhares de vítimas que se amontoam no país onde a ignorância tem um propósito claro de perpetuação do poder dos abutres sedentos por mais e mais dinheiro, mais poluição. Paciência, cada um tem a fumaça que merece.

Não me estranha, na verdade, que aqueles jovens não conheçam as montanhas, tanto quanto eu e você. Não estamos preparados para enxergar o Himalaia que há em cada um de nós que é o amor, a compaixão e a certeza única de que dessa vida nada se leva senão ela própria. A cegueira sempre foi deliberada.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Provações nossas de todo dia.

Todo dia tem uma prova; tem pelo menos uma prova todo dia. É com base nessa premissa que eu busco a coragem de enfrentar as coisas que surgem no dia. Todo dia. Se olhar bem, com um pouquinho de perspectiva, nossas provas são cada dia mais fáceis, pois antes era necessário uma dose extrema de sorte aliada à capacidade de enfrentar feras, noites escuras e o pior: uma vida sem pipoca de microondas e lasanha de espinafre ao molho pesto. E olhe que daqui a alguns anos alguém vai olhar para trás e dizer: - mas esses humanos eram muito loucos, pautavam suas vidas em um pedaço de papel e por ele matavam outros e se matavam no fim.

Bom, pelo menos é o que eu espero que seja, considerando que todo dia tem uma prova. É a visão otimista de que só o mais adequado ao exame consegue passar por ele, e nesse caso, eu enxergo a misoginia, a homofobia, o machismo, todos os tipos de crueldade animal e humana, a avareza, a ganância, o racismo e todos os ismos que nos separam, como elementos de nossa fraqueza e que estão fadados ao fracasso. Não desejo isso para a próxima geração, mas para o próximo amanhã.

E aí quando a gente se vê que conseguiu superar um desafio na vida, mesmo um desses mais fáceis, é bom demais. Superou um emprego ruim, uma relação ruim, uma vida enfadonha, um sentimento ruim de inveja. Foi mais forte que uma mágoa, foi capaz de abraçar o espinho que te feriu, é melhor ainda. Então, antes de achar que não tem nada para fazer hoje, pense na quantidade de pequenas provas que a gente tem. Ninguém precisa mais enfrentar feras e noites escuras, mas ainda temos nossas bestas e nossas trevas para afugentar e domar. Afinal, todo dia é uma prova; é pelo menos uma prova o viver de cada dia.




sexta-feira, 23 de março de 2018

Recado para o hoje, que também é o sempre.

Eu passei dias procurando um tempo livre para escrever sobre a necessidade de 'dizer', mas o medo de perder um tempo precioso concatenando frases e ideias que depois vão ficar perdidas no tempo e no ocioso espaço que é a internet tem me afastado dessa tarefa.

Mas, por que falar? Porque será que é bom falar? Bom, sem querer transformar esse em um texto retórico, apenas adianto que é importante que as pessoas falem, digam. O que está escrito apenas nas entranhas do cérebro tem a volatilidade do aroma fraco de uma gota que se evapora: simplesmente vai. O que você escreve pode nem ser o fruto dos seus minutos livres mais inspirados, mas certamente vai ser uma prova tátil, palpável, do que um dia você pensou. Vai sim se perder no tempo e espaço ocioso da internet, ou dos cadernos, diários, papiros, tábuas e pedras da humanidade. Vai sim ter mil interpretações, traduções; mas de tantas versões do mesmo fato, a que realmente importa é justamente nenhuma e todas elas ao mesmo tempo. O dito é importante em si mesmo, para quem escreve e para quem lê.

E esse medo de perder tempo é também o medo de me perder em mim. Por isso que, antes que eu divague mais, é importante deixar bem claro que: o universo é maravilhoso. Hoje, nesse particular dia desse particular ano, nessa particular sala desse particular prédio desse particular planeta, o fato disso tudo me permitir abrir a boca e dizer que o universo é maravilhoso; essa singeleza é a coisa mais maravilhosa que pode existir.

Não precisa viajar até a Mongólia, ou deitar num campo de tundra siberiana, ou estar dentro de um barco cruzando o Nilo: você é você onde quer que você esteja e o mundo vai ser melhor ou pior não porque um avião te levou no lugar mais curtido e hype e cool. Você é você sobre o seu próprio pé em qualquer lugar desse e de outro mundo.

Então, recado mental para mim e para as pedras sobre as quais escrevo: desejo de estar em outro lugar é mera circunstância, o real e o que importa está dentro da sua cabeça. O amor que você dá pro outro, o que você recebe. As relações positivas que você tem com seu meio, com tudo aquilo que você já foi, é e será. Você não precisa ser sete bilhões no mundo, basta ser um dentre estes e é só isso que é requerido de você, e ainda bem que é só isso. Porque imagina o monte de loucura que é cuidar só da sua mente e da bagunça que você faz diariamente da sua vida, se você ainda tivesse que cuidar de outra?

Se puder, pergunte à natureza, diretamente. Ela pode lhe ajudar.

Portanto, recado dado, agradecimento feito, lembre-se: é tempo bem gasto esse em que você diz eu te amo para alguém. Não perca tempo e faça agora e a todo tempo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

À deriva.

João nasceu em julho. Desse fato não há muito que se falar: ele simplesmente nasceu. Sua mãe talvez tenha algo a acrescentar ao ocorrido, possa dar detalhes do choro, da dor, do cheiro de talco e roupa limpa e das costas doídas depois de meses de uma coluna envergada por um bebê que nunca parava de engordar. Mas o fato foi que João veio ao mundo e pronto. Um bebê.

Ainda pequeno, quando o poder de escolha e das consequências dos seus atos estava basicamente concentrado na mão de outra pessoa, sua mãe teve que escolher entre A e B, sendo A ir atrás do amor da sua vida, o pai de João, itinerando pelos interiores de sua alma e de sua terra, bem longe de quem ela tanto queria bem, e B desistir de tudo, trafegando pelo campo calmo que é a paz e o conforto das nossas zonas.

Em resumo rápido - pois não vim aqui falar da mãe de João senão do próprio - ela decidiu pelo plano A e seguiu o pai de seu filho pelas suas viagens. João também sofreu as consequências da decisão de sua mãe, afinal era um mero navegante à deriva de uma tempestade, ao sabor do destino e do vento, daquele amor complicado. Até hoje eles, os pais, estão juntos, não sem dificuldade. Não significa que ''até hoje estar junto'' seja a glória e o único desejo de toda relação. Todo mundo sabe que uma história é muita tosse, café frio, boleto, imposto, me dê a senha do seu celular, quem é essa Marcela no seu instagram, sua mãe não tem noção, seu pai é pior, aquele corno do seu primo, você parece que come cocô pra falar um negócio desses, você que deve ser muito burro pra não entender, vamos fazer as pazes, vamos, mas eu só falo com voz de bebê agora, tá certu bebezão.

E aí dentre os mil dias que começam sem um bom dia carinhoso e terminam em um beijo com sabor de pasta de dente, tem aqueles que você se sente a pessoa mais especial do mundo, aquele em que um passa numa prova desejada, aquele outro em que você chega em casa e tem uma cama coberta de pétala de rosas, aquele em que rola um sexo proibido na praia nem tão deserta assim. Aquele dia em que tudo estava dando errado, em que os boletos entupiram a caixa e que ambos gastam o resto do dinheiro do mês numa coisa bem extravagante e utilmente desnecessária.

Mas e se a mãe de João tivesse escolhido B, deus sabe onde João estaria agora. Poderia João ser rico, ou ser pobre, estar vivo ou estar morto. Estar casado ou solteiro, com dois filhos ou sem nenhum. Podia ter escolhido se mudar para o nordeste e se encantado com a praia e os golfinhos, vender a arte ou planejar ataques a banco. Podia ter assistido à chuva de meteoros passar no céu estrelado de um janeiro solitário em sua casa ou podia estar comendo peixe e tapioca com uma família numerosa. Enfim, deu para entender que tem escolhas que João não faz, mas que mesmo assim vão definir um bom pedaço do rumo dele.

Acontece que João hoje é dono do seu nariz, ele é quem ele é em boa parte porque as escolhas feitas por sua mãe o trouxeram até aqui. Um menino bom, um rapaz atencioso e que cuida do cabelo, mas desse fato não há muito que se falar: ele simplesmente cresceu.

E agora, pressupondo que as decisões de sua mãe sobre A ou sobre B não vão mais impactar tanto na sua trajetória, eis que aquele bebê nascido em julho, que acompanhou todas as tosses e cafés gelados de seus pais, tem diante de si duas opções: A e B, sendo A ir atrás do amor da sua vida, itinerante pelos interiores de sua alma e de sua terra, bem longe de quem ele tanto queria bem, e B desistir de tudo, trafegar pelo campo calmo que é a paz e o conforto das nossas zonas.

Todo dia é dia de tomar decisões. Todo A pode levar a um caminho que pode ser a solidão no meio da multidão e B a alegria de se sentir pleno no vale onde alma alguma habita. Tem outros Joãos e outras Marias que vão sentir o impacto dessa decisão, mas a essa altura, assim como foi com a mãe, o pai, e todos os outros milhões de seres que simplesmente escolhem todos os dias, ninguém pode fazer isso por ele.

Eis a dor e a beleza de sermos navegantes à deriva nesse mar bravio que é a vida.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Pequenos suicídios

Cora Coralina disse uma vez que é preciso que alguém reveja, escreva e assine os autos do passado antes que alguém leve tudo a raso. Que sabedoria a dessa mulher, não? Ouso dizer que até mesmo as tragédias têm um lirismo perfeito: a minha dor me é tão cara que eu posso viver sem um braço, mas não sem ela. Seja em matéria de grandes feitos ou de pequenos martírios, o passado é mais que direito: é essência do que somos formados, rocha de nosso chão ou basicamente o que nos separa de um pedaço de carne que só anda e fala.

Autores, revisores e leitores assíduos desse nosso pequeno sopro chamado existência, escrito todo dia no papel da inexorável marcha do tempo. Nós somos também pilotos desse corpo e a nós nos compete tomar o rumo: um caminho que não só tem um fim certo, mas também uma única chance de ser bem percorrido, afinal todo segundo que se vive é o último e o único ao qual somos obrigados.

E essa história, o passado, é feita todo o tempo, se morrendo para se viver; são pequenos suicídios que a gente comete para corrigir os rumos, retomar as rédeas de si, every single day. Doses diárias de coragem são necessárias para que o eu seja sempre eu e não qualquer outro errante perdido por aí. Doses tão fortes que parte de nós vai junto com as decisões: em matéria de vícios, relacionamentos e empregos, é preciso deixar morrer certas coisas antes que elas te morram.

Sou meu passado, mas sou ainda mais meu futuro. Ora, todo santo dia é o dia para fazer o maravilhoso acontecer. Todo santo dia é o momento de se obrigar a não fazer nada menos que o maravilhoso de nossas vidas e, por consequência, da vida dos outros que nos cercam e ainda das que podemos tocar com nossos atos. Vejamos, escrevamos e assinemos nossas histórias com orgulho de tê-las feito da melhor maneira que pudemos em cada pequena ou grande decisão. Que o arrependimento e o perdão sejam os ensinamentos necessários para melhorar essa escrita a cada nova página, a cada nova obra.

É bom lembrar que toda história tem um único fim, mas a beleza que existe no meio é culpa da cor da tinta e da habilidade do pintor. Quem não faz isso, não decide o que é o melhor para sua história a cada segundo, é melhor logo se considerar um pedaço de carne que só anda e fala. Isso vale desde o dia em que se nasce ao dia em que se vai de vez.

Olhos de alvorada

Eu não sei o que tem nesses olhos que vivem com sono
sem jeito e sem dono
Sem ideia da força que têm        

Eles são a quimera escandalosa
São ao mesmo tempo prisão e alforria
Nas auroras mais silenciosas
São denúncia de que amanheceu o dia

São becos, frestas, vielas
Esses olhos são asilo
Para onde correm os outros sentidos
E onde se escondem os fugitivos.

Eu não sei o que tem nesses olhos que vivem com fome
sem jeito e sem nome
Sem ideia da beleza que têm     

Que me fazem lembrar o nascer do sol na pele queimando
Sem a correria do perfeito plano
Esses olhos têm um jeito gostoso de me fazer bem.

Janeiro de 2014.