sábado, 12 de julho de 2014

Olhos são globos terrestres

Confesso que sou apaixonado pela visão porque ela é substantivo rico. Ponto de vista é o jeito que você olha pras coisas; visão de mundo é a amplitude de conhecimento sobre um conjunto de fatos; a mirada é o olhar, o mirante é o lugar onde se observam todas as coisas lindas e sujas. Até mesmo o que é invisível existe, pois visão é substantivo rico. O escrutínio dos olhos sobre os fatos - os verdadeiros e os mentirosos -, sobre o passado e o presente, sobre o que você espera ver mesmo antes de ter visto, de viver antes de ter vivido, é nada mais que uma metáfora do olhar; é déjà vu.

A verdade é que a gente é só sentido e sentimento; energia e matéria. Somos inúmeros pontos unidos escrevendo retas e linhas tortas. E ainda que esse ponto esteja aqui . ou em qualquer lugar no mapa mundi, desenhando pequenas linhas entortadas na tela do computador ou no caderninho de bolso, o globo terrestre que é cada olho nosso é quem nos conta essa história escrita em luz e forma. Ora, o mundo é uma construção individualista e o seu olhar sobre ele é o que o define e o que o reflete. É minha a imagem que vejo no espelho?

Então, na dúvida, olhe nos meus olhos e me leia. Eu sou todo construção minha e desconstrução também. Sou um produto da visão, da minha, da sua, do erro e do acerto. Minha mirada está aí, sem véu, sem medo, completamente devassável pois que sem máscara ou lente, porque esses olhos são o meu mundo, meu globo terrestre.

Isaac N

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Quasilindo



Frustração é uma receita que você mesmo faz. Bem simples, bem direta: você cria perguntas que geralmente não têm respostas, talvez por serem retóricas em sua essência, e as contesta a partir da sua visão de mundo, que fatalmente é parcial e, logicamente, viciada.

As receitas da vida bem que poderiam ser objetivas como a da frustração; quem dera fossem gramática. As regras de pontuação serviriam para dar os devidos espaços para a respiração fluir entre uma sentença e outra; as regras de sintaxe me diriam que o sujeito pode não estar presente na frase. Não é porque você criou uma interrogação e inventou de colocá-la ali, bem ali, no fim do período, que você vai ter uma resposta afirmativa. A negação é um jeito de responder e também um jeito de se esconder.

O quasilindo disso tudo é que todo novo dia é também um neologismo, porque por mais que se queira, as coisas e as coisas que vêm das coisas não são cíclicas (ainda bem), mas lineares. São no máximo um novelo tão bem enrolado que vira uma bola. E assim você pode também chutá-la pro alto e engalhá-la no poste de luz, no teto de vidro, no espelho, no penhasco - ou adiar tudo pro mês que vem. E por serem lineares, ou enlinhadas, é que as perguntas não têm uma resposta conhecida; ao contrário, ficam aí presas nas palavras não ditas, nos exageros de emoção, nas verdades que você só têm pela metade e nas mentiras que você mesmo se dá por inteiro. Como um livro que voa e que te faz voar, quasilindo.

Só não culpe o outro. O seu problema é seu e a sua retórica é sua, o outro não participa das suas elucubrações mas do seu desejo. O outro não é fator porque é também incógnita. O outro pode até saber a resposta, mas a receita da pergunta, essa é como a frustração, é só você quem faz.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Meu coração é uma ilha

Já diria Djavan, que djavaneia como ninguém, que o coração é uma ilha a centenas de milhas daqui. Escuto isso tentando devanear, tal qual o poeta inspirado, imaginando um oceano de águas bravias, repleto de criaturas do mar, implacáveis, famintas, orgulhosas. E nessa ilha lá isolada no meio do pacífico, perdida, ancorada em cadeia montanhosa profundíssima que podia muito bem se chamar peito ou edifício, está o coração roçando no imenso mapa azul, que lhe arranca pedaços, lhe faz carícias, lhe joga pedras, lhe lança anzóis, lhe perde a vista.

De tão alta dá vertigem, de tão exposta encandeia e inibe, de tão firme não vibra e de tão bela lembra o sol que nasce - ainda bem - todas as manhãs por trás das cortinas do quarto e das pálpebras dos olhos.

Mas ela está ali, e isso é bonito, ainda que distante, ainda que medida na casa de centenas de milhas, separadas pelo mar bravio e pela saudade. E por mais bonita que seja, não há foto capaz de captar fisicamente tamanha força; memória não compartilhada mas viva como uma imagem impressa que eu mostro com orgulho pra quem eu quiser.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mas o não-desejo não tem cura.

Não sei viver sem gravidade. Na verdade, nunca aprendi a flutuar, a boiar ou a me abster dos meus próprios pesos e pesares. E da mesma forma que a palavra sugere, a gravidade lembra a severidade que as coisas têm sobre as outras: tudo é grave, tudo te traz pro chão ou então te afunda pro abismo onde a falta é uma constante. Falta de chão, falta de pão, falta de ar, falta de luz, falta de vontade. Não é fácil admitir mas a falta é uma grandeza como a própria gravidade, cresce exponencialmente e se choca contra o chão com toda força se espatifando em não-desejo.   

E eu, aqui enquanto caio, percebo que o abismo mais parece um espelho, pois enquanto nele me jogo ele também vem se jogando em mim. E nesse encontro a meio caminho, nessa queda em que estou, nesse mergulho no rio de cores vibrantes e ondas assassinas, é o precipício que aí vem; eu o vejo chegando pouco a pouco. O choque é iminente, inevitável, é grave.

Eu quero muito acreditar que o meu abismo é o meu desejo já devaneado, estimulado por impulsos de luz, som, fumaça e embriaguez; mas não, aquele que vem, aquele que eu vejo, é uma criança corroída pela medusa carnívora. Todo gris, roto, colado em pedaços; esquecido, desenganado, morto. Assim como o não-desejo, que também não tem cura.


Ninguém é obrigado a ser o chão duro da minha queda, mas todos estão condenados a viver sobre e sob a mesma gravidade.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O desejo é a dor do desejo



O desejo é a dor do desejo. Enraíza os alvéolos e brônquios com um só sopro amargo. Trava tudo; respirar é a última das funções de um pulmão doente de querer. É como um sólido, um bólido, arranhando o tórax por dentro enquanto sacia sua vontade mesquinha de se fazer sentir e se fazer doer, interrompendo o curso do tempo aqui na terra com uma velocidade cadenciada e quase dormente, mas que não te deixa dormir.

Ali as luzes são raios, choques, espectros de uma realidade inventada e desinventada na hora. São pólvoras e faróis explodindo em profusão, são anis, são o que você quiser ver. Um olhar doente de desejo não vê nada senão a cor que lhe apetece, que lhe transporta imediatamente para aquele lugar bom e seguro; para o abismo verde do oceano ou para o sofá de casa. Os monstros são sempre os outros, mas os doentes de desejo se reconhecem, encontram-se em suas angústias e simpatizam em suas vontades. E quando fecham os olhos vêem seu querer borbulhando, correndo no leito de um rio colorido como medusas alucinadas fazendo acrobacias, engolindo-se umas as outras e regurgitando em geometrias agudas, em sons graves. Ali o pensamento não é razão pois o desejo não deixa pensar. Também pudera, o desejo é uma água-viva louca e carnívora em um rio caudaloso.

O desejo é, por fim, armadilha. Ele te dá as respostas que você não perguntou e te pergunta coisas que você não sabe responder. É uma charada das boas, daquelas cuja solução é a própria pergunta dissecada em pequenos fragmentos de sentido. O desejo não tem estética, ele não tem forma, ele não se preocupa com convenções, ele só quer devassar seu pulmão por completo, só quer te ver plano, franco, carnal, honesto, estóico. É bom estar preparado para as verdades, pois ele não é feito de frivolidades mas de concupiscências.

E quando você acha que vai morrer de desejo, eis que o tempo regula tudo e o que estava dentro agora está fora e vice-versa. Eu gosto da dor do querer, pois eu gosto da dor de me sentir humano.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Antes de cada por do sol


A gente meio que nasceu com um pouco de habilidade pra tudo, pra tocar um recital e pra correr uma maratona. Pra dormir sem sonhos por dias ininterruptos ou pra sonhar muito bem acordado. Pra fugir pro outro lado do mundo mas levar consigo os problemas na mala. Pra, ao mesmo tempo, não fugir e ser devorado pela fraqueza da carne quando pulsa pulsa pulsa e se rasga frouxa em pensamento. Pra crescer um pouco todo dia, enquanto se queixa do tédio, do hábito ou do cálice.

A gente meio que nasceu com um pouco de habilidade pra estragar tudo. Pra substituir uma expectativa por outra, o que é quase sempre o caso. Pra esperar dias melhores sem fazer absolutamente nada, o que é também quase sempre o caso. Pra deixar as chances escorregarem entre os dedos com mais frequência do que quando realmente as aproveitamos. Pra se privar do que não deve ser privado.

Não acho que para todo mal há cura. Mas dentre os remédios para os males que têm sim cura, o melhor deles é dormir e sonhar com o braço pressionando seu peito, quase lhe sufocando e quase me machucando. E ainda que seja meio agoniante, é seguro, é conforto. Assim os opostos são como complementos se encontrando em suas versões antagônicas. Paz e guerra, som e silêncio, pele e tatuagem.

Por via das dúvidas, desça do trem e conheça Viena, ou desça as calçadas e conheça Natal mesmo. Ali na praia, ali perto do morro, ali na água rasa, antes de cada por do sol. O crepúsculo é a prova que tanto o pior quanto o melhor dos dias vai ter um fim - e um recomeço.

E ainda bem que é recomeço, pois o que importa é que a gente meio que nasceu com um pouco de sorte pra tudo, seja pra se perder e se achar, ou pra se morrer e se matar.

Isaac N

Inspirado na trilogia de Antes do Amanhecer.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sobre o abismo e suas iniquidades.


É um animal; é grotesco e frágil, caminhando sobre a corda bamba, está vivo por acidente. Observa a pequena casa construída no topo da montanha, na beira da escarpa, no limiar da lei física, bem além do limiar da lei da natureza do mesmo animal que a construiu. Ela está ali, não por acidente, talvez por circunstância, por capricho, por hipótese, por pura teoria. A gente não raro constrói nossas casas sobre grossos e fortíssimos alicerces de ilusão, paredes espessas de puro concreto de tédio e ódio, teto do mais transparente vidro... Muito mais belo que um lar suntuoso de mentira é qualquer paredinha de adobe, desde que de verdade.

 Mas estava lá o animal, grotesco e frágil, caminhando sobre a corda bamba, vivo porque a sorte o permitira. E observava ainda mais como a pequena casa do topo da montanha tinha um quê de realidade mágica, magnânima. Parecia intocável, impenetrável, desafiante e intransigente. Fulgurava junto às estrelas, dançava junto ao vento, sorria junto à lua e brincava de sumir e surgir toda manhã com a névoa branca, com o orvalho azulado, sorrindo para o condor que nela havia feito morada. Ela era simples, mas era verdade.

Enquanto isso a corda bamba tremia diante da insustentável leveza do animal. Era melhor fechar os olhos para não sentir a vertigem diante de tão perigosa estrutura e tão assombroso abismo. A gente não raro constrói nossas decisões em ideários tão trêmulos, tão fictícios, tão fajutos, e para eles fechamos os olhos como se, por não o vermos, fingimos não existirem... Muito mais belo que simplesmente caminhar o caminho dos outros é criar e seguir o seu próprio, de olhos bem abertos, pois que enquanto ele for verdadeiro, triunfará sobre qualquer corda bamba, será vitorioso sobre qualquer abismo.

E a casa o olhava, lá de cima, estática, despreocupada, destemida, entrincheirada em sua posição gloriosa e firme. É por isso que, para não perecer em precipícios, é fundamental ter raízes. Ao mesmo tempo, é fundamental ser grotesco e frágil para entender que se é. Se é.