sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Meu coração é uma ilha

Já diria Djavan, que djavaneia como ninguém, que o coração é uma ilha a centenas de milhas daqui. Escuto isso tentando devanear, tal qual o poeta inspirado, imaginando um oceano de águas bravias, repleto de criaturas do mar, implacáveis, famintas, orgulhosas. E nessa ilha lá isolada no meio do pacífico, perdida, ancorada em cadeia montanhosa profundíssima que podia muito bem se chamar peito ou edifício, está o coração roçando no imenso mapa azul, que lhe arranca pedaços, lhe faz carícias, lhe joga pedras, lhe lança anzóis, lhe perde a vista.

De tão alta dá vertigem, de tão exposta encandeia e inibe, de tão firme não vibra e de tão bela lembra o sol que nasce - ainda bem - todas as manhãs por trás das cortinas do quarto e das pálpebras dos olhos.

Mas ela está ali, e isso é bonito, ainda que distante, ainda que medida na casa de centenas de milhas, separadas pelo mar bravio e pela saudade. E por mais bonita que seja, não há foto capaz de captar fisicamente tamanha força; memória não compartilhada mas viva como uma imagem impressa que eu mostro com orgulho pra quem eu quiser.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mas o não-desejo não tem cura.

Não sei viver sem gravidade. Na verdade, nunca aprendi a flutuar, a boiar ou a me abster dos meus próprios pesos e pesares. E da mesma forma que a palavra sugere, a gravidade lembra a severidade que as coisas têm sobre as outras: tudo é grave, tudo te traz pro chão ou então te afunda pro abismo onde a falta é uma constante. Falta de chão, falta de pão, falta de ar, falta de luz, falta de vontade. Não é fácil admitir mas a falta é uma grandeza como a própria gravidade, cresce exponencialmente e se choca contra o chão com toda força se espatifando em não-desejo.   

E eu, aqui enquanto caio, percebo que o abismo mais parece um espelho, pois enquanto nele me jogo ele também vem se jogando em mim. E nesse encontro a meio caminho, nessa queda em que estou, nesse mergulho no rio de cores vibrantes e ondas assassinas, é o precipício que aí vem; eu o vejo chegando pouco a pouco. O choque é iminente, inevitável, é grave.

Eu quero muito acreditar que o meu abismo é o meu desejo já devaneado, estimulado por impulsos de luz, som, fumaça e embriaguez; mas não, aquele que vem, aquele que eu vejo, é uma criança corroída pela medusa carnívora. Todo gris, roto, colado em pedaços; esquecido, desenganado, morto. Assim como o não-desejo, que também não tem cura.


Ninguém é obrigado a ser o chão duro da minha queda, mas todos estão condenados a viver sobre e sob a mesma gravidade.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O desejo é a dor do desejo



O desejo é a dor do desejo. Enraíza os alvéolos e brônquios com um só sopro amargo. Trava tudo; respirar é a última das funções de um pulmão doente de querer. É como um sólido, um bólido, arranhando o tórax por dentro enquanto sacia sua vontade mesquinha de se fazer sentir e se fazer doer, interrompendo o curso do tempo aqui na terra com uma velocidade cadenciada e quase dormente, mas que não te deixa dormir.

Ali as luzes são raios, choques, espectros de uma realidade inventada e desinventada na hora. São pólvoras e faróis explodindo em profusão, são anis, são o que você quiser ver. Um olhar doente de desejo não vê nada senão a cor que lhe apetece, que lhe transporta imediatamente para aquele lugar bom e seguro; para o abismo verde do oceano ou para o sofá de casa. Os monstros são sempre os outros, mas os doentes de desejo se reconhecem, encontram-se em suas angústias e simpatizam em suas vontades. E quando fecham os olhos vêem seu querer borbulhando, correndo no leito de um rio colorido como medusas alucinadas fazendo acrobacias, engolindo-se umas as outras e regurgitando em geometrias agudas, em sons graves. Ali o pensamento não é razão pois o desejo não deixa pensar. Também pudera, o desejo é uma água-viva louca e carnívora em um rio caudaloso.

O desejo é, por fim, armadilha. Ele te dá as respostas que você não perguntou e te pergunta coisas que você não sabe responder. É uma charada das boas, daquelas cuja solução é a própria pergunta dissecada em pequenos fragmentos de sentido. O desejo não tem estética, ele não tem forma, ele não se preocupa com convenções, ele só quer devassar seu pulmão por completo, só quer te ver plano, franco, carnal, honesto, estóico. É bom estar preparado para as verdades, pois ele não é feito de frivolidades mas de concupiscências.

E quando você acha que vai morrer de desejo, eis que o tempo regula tudo e o que estava dentro agora está fora e vice-versa. Eu gosto da dor do querer, pois eu gosto da dor de me sentir humano.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Antes de cada por do sol


A gente meio que nasceu com um pouco de habilidade pra tudo, pra tocar um recital e pra correr uma maratona. Pra dormir sem sonhos por dias ininterruptos ou pra sonhar muito bem acordado. Pra fugir pro outro lado do mundo mas levar consigo os problemas na mala. Pra, ao mesmo tempo, não fugir e ser devorado pela fraqueza da carne quando pulsa pulsa pulsa e se rasga frouxa em pensamento. Pra crescer um pouco todo dia, enquanto se queixa do tédio, do hábito ou do cálice.

A gente meio que nasceu com um pouco de habilidade pra estragar tudo. Pra substituir uma expectativa por outra, o que é quase sempre o caso. Pra esperar dias melhores sem fazer absolutamente nada, o que é também quase sempre o caso. Pra deixar as chances escorregarem entre os dedos com mais frequência do que quando realmente as aproveitamos. Pra se privar do que não deve ser privado.

Não acho que para todo mal há cura. Mas dentre os remédios para os males que têm sim cura, o melhor deles é dormir e sonhar com o braço pressionando seu peito, quase lhe sufocando e quase me machucando. E ainda que seja meio agoniante, é seguro, é conforto. Assim os opostos são como complementos se encontrando em suas versões antagônicas. Paz e guerra, som e silêncio, pele e tatuagem.

Por via das dúvidas, desça do trem e conheça Viena, ou desça as calçadas e conheça Natal mesmo. Ali na praia, ali perto do morro, ali na água rasa, antes de cada por do sol. O crepúsculo é a prova que tanto o pior quanto o melhor dos dias vai ter um fim - e um recomeço.

E ainda bem que é recomeço, pois o que importa é que a gente meio que nasceu com um pouco de sorte pra tudo, seja pra se perder e se achar, ou pra se morrer e se matar.

Isaac N

Inspirado na trilogia de Antes do Amanhecer.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sobre o abismo e suas iniquidades.


É um animal; é grotesco e frágil, caminhando sobre a corda bamba, está vivo por acidente. Observa a pequena casa construída no topo da montanha, na beira da escarpa, no limiar da lei física, bem além do limiar da lei da natureza do mesmo animal que a construiu. Ela está ali, não por acidente, talvez por circunstância, por capricho, por hipótese, por pura teoria. A gente não raro constrói nossas casas sobre grossos e fortíssimos alicerces de ilusão, paredes espessas de puro concreto de tédio e ódio, teto do mais transparente vidro... Muito mais belo que um lar suntuoso de mentira é qualquer paredinha de adobe, desde que de verdade.

 Mas estava lá o animal, grotesco e frágil, caminhando sobre a corda bamba, vivo porque a sorte o permitira. E observava ainda mais como a pequena casa do topo da montanha tinha um quê de realidade mágica, magnânima. Parecia intocável, impenetrável, desafiante e intransigente. Fulgurava junto às estrelas, dançava junto ao vento, sorria junto à lua e brincava de sumir e surgir toda manhã com a névoa branca, com o orvalho azulado, sorrindo para o condor que nela havia feito morada. Ela era simples, mas era verdade.

Enquanto isso a corda bamba tremia diante da insustentável leveza do animal. Era melhor fechar os olhos para não sentir a vertigem diante de tão perigosa estrutura e tão assombroso abismo. A gente não raro constrói nossas decisões em ideários tão trêmulos, tão fictícios, tão fajutos, e para eles fechamos os olhos como se, por não o vermos, fingimos não existirem... Muito mais belo que simplesmente caminhar o caminho dos outros é criar e seguir o seu próprio, de olhos bem abertos, pois que enquanto ele for verdadeiro, triunfará sobre qualquer corda bamba, será vitorioso sobre qualquer abismo.

E a casa o olhava, lá de cima, estática, despreocupada, destemida, entrincheirada em sua posição gloriosa e firme. É por isso que, para não perecer em precipícios, é fundamental ter raízes. Ao mesmo tempo, é fundamental ser grotesco e frágil para entender que se é. Se é.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sofri um acidente.

Ontem eu sofri um acidente de trânsito que me deixou machucado. Tá, menos. Eu não estava dentro do carro, tão pouco vi o abalroamento acontecer; ferimentos físicos: nenhum. Entretanto, o que me garante que eu sofri mesmo um acidente, que eu estive lá e que estive machucado por um momento foi o sentimento inconformado e ao mesmo tempo reflexivo que veio lá de dentro, tal qual como a dor física. Veio lá do espírito se é que assim se pode dizer, da alma (por que não?), aquela nossa bateria tão potente e ao mesmo tempo tão fraca.

A gente associa o espírito àquela parcela de vida incorpórea, algo entre o extraordinário e o inexistente. Mas eu acho legal pensar na “alma” ou anima, como queiram, na mais pueril e incrível força que nos movimenta, sem que isso signifique nada sobrenatural ou divino. E essa história tem muito de alma: a minha sendo confrontada, a dos outros sendo eternizada.

Mas, vou guardar um pouco dessa experiência transcendental para daqui a pouco e voltar ao acidente de trânsito e aos hematomas decorrentes do sinistro.

O acidente de fato existiu. Tive prejuízo e tudo mais. O estresse usual, essas angústias cotidianas que nos custam uns muitos dias (ou seriam anos?) de vida lá no juízo final do banco de horas da vida. Angústias mundanas, materialistas, dispensáveis. Mas os hematomas, esses são metafóricos mesmo pois acontecem lá no âmago da alma. Lá dentro os fios desencapados da alma provocaram curtos circuitos, descargas elétricas. Nada como uma dose de realidade pra nos retirar do lugar comum da maneira de ver o mundo, para desencadear conflitos. E para nos inspirar. A dor também inspira.

A mulher que provocou o acidente fugiu sem deixar nota. Bateu e me deixou abatido. Não me deu o direito de ter raiva, pena, compaixão, nada. Eu nem sei se era mulher, mas na minha imaginação eu a vejo dirigindo apressada, dentes cerrados, mãos suando, o vestido preto curtíssimo subindo e ela tentando ajeitá-lo, baixando-o de novo de volta às pernas. A imagem de seu amado vem à mente e ela olha pelo retrovisor para ajeitar o batom. Amassa os lábios e os umidifica, mordendo-os em seguida com um tesão tão reprimido quanto visivelmente explícito. Olha o relógio e vê que está 15 minutos atrasada para o encontro. Um quarto de hora até se entregar ao seu amado. O som estava alto, era Seu Jorge dizendo no ouvido dela: “Foi o seu olhar o que me encantou / quero um pouco mais desse seu amor”... E lá estava ela, sofrendo de paixão aguda em grau terminal, desenganada pelos médicos, pais de santo e roteiristas de novela quando de repente BAM. Na minha imaginação ela bateu e fugiu porque iria reencontrar o objeto de seu desejo e seu desejo infelizmente não permitia obstáculos ou condições. Só o amor salva, só o amor eterniza e ela está a salvo porque ama. Sendo assim, vá!

Aí eu escrevi, no calor do momento, que nunca é tarde pra começar a desacreditar na humanidade. Não podia estar mais errado. Ora, eu provavelmente fui o responsável por subtrair daquela motorista incauta alguns minutos longe do seu amor. Ela não tem porque me pedir desculpas, a ela está permitido ir sem me dar explicações, ainda que eu esteja com uma bela de uma conta na oficina para pagar. A dor também suspira.

Talvez seja por isso que eu goste de escrever, para poder me confrontar. Sério, às vezes eu gosto de provar que estou certo com base no meu parco conhecimento de mundo, nas experiências e leituras que a vida me proporcionou até agora. Mas o que eu gosto mesmo é quando alguém me prova o seu contrário. Quando me convencem que eu estou errado, que eu sempre estive errado e que o que eu escrevi estava tão errado mas tão errado, que podia ser matéria de capa da Veja.

E os hematomas, ah... esses já viraram poesia, pois tenho quase certeza que essa meliante era extremamente linda.

domingo, 12 de maio de 2013

Poeira Estelar



Poeira estelar. E não é que ele tinha razão? Somos mesmo poeira estelar, em física e em metafísica. Perdão pela assertividade com que digo, mas eu sempre soube ser e quis ser poeira. Ser pó, ser sujeira do balcão que fica grudada na pele do último bêbado abandonado; pó molhado de suor, água, álcool...

Gosto de ser pó da maquiagem que fica na manhã seguinte, na minha barba, na minha boca e no meu pensamento, igualmente sujo, como tudo o é. Sujo como o prazer, que é egoísta e invejoso, que exige mais e mais de si, ou não se lembra de como tudo tremia ao mínimo toque, ao pensamento ou lembrança? Tudo era memória ou até mesmo fantasia, ideia, imaginação de um momento que pode ou não ter existido. Prazer é egoísmo que define e definha.

Gosto de ser poeira do meu quarto, pois, dentro dele, ela e eu clamamos pelo caos, escalamos as paredes, trememos na utopia, vivemos em Nirvana e cedemos juntos na lentidão agoniada e grunge das horas, cadentes por excelência e desarmoniosas por opção.

Gosto de ser pó na insanidade da agitação, de ser impulso frenético que pulsa pulsa PULSA!

Sou partícula, enfim. Elemento e parte, produto das estrelas, sou tudo e sou nada. O que é lá de cima, do inalcançável e do transcendental é também daqui de baixo, terreno e mundano, perverso.

Por isso, na minha humilde opinião de poeira estelar, não existem distâncias tampouco instâncias para se viver em excesso ou em déficit. Nós simplesmente somos um, bem verbo intransitivo assim. Bem intransigente assim.

(Ah, Freud, essa não é uma sessão de psicanálise).